quinta-feira, 26 de junho de 2003

Juízo? Eu passo longe...

"Atrapalhada" é o meu nome do meio. Sou uma adulta que prende os cabelos na janela do carro e acerta fivelas de cinto no próprio pé, então imaginem minha vida quando eu era apenas uma criança com coordenação motora semidesenvolvida. O fato é que essa propensão a acidentes me fez criar resistência à dor - mas nenhum dos tombos da infância poderia me preparar para o que estava por vir no consultório do dentista.

Deixa fazer a conta: recebi quatro pontos de costura acima na sobrancelha (escorreguei no molhado e despenquei pra dentro de um bueiro aos três anos), 13 outros na perna direita (caí sobre uma mesinha com tampo de vidro aos sete anos) e mais quatro logo acima do lábio (tropecei na rua com uma lata de soda e acertei a tal em minha própria face aos 10 anos).

Total de 21, né? Mas na verdade eu ainda contabilizei mais um ponto cirúrgico na vida. Foi o famigerado dia de "retirar o dente do juízo". Juízo? Bom, eu quase perdi o meu de vez nessa intervenção.

Dizem meus amigos hipocondríacos que a maior dor que alguém pode sentir é ter pedra no rim. Eu nunca contei com esses aerolitos internos, mesmo bebendo três copos de leite ao dia, mas desconfio dessa afirmação. Tirar um dente do siso é enlouquecedoramente doloroso.

No dia em que me dirigi ao moço de branco para terminar com a dor incômoda, já esperava um processo problemático. Para começar, ele me deu seis anestesias - eu pedi, sou nervosa.

Como o dentinho era gigante e torto, foi preciso abrir o local quase usando uma britadeira. Parecia obra de manutenção em galeria de águas na Avenida Paulista, com a diferença que o que jorrava para todo lado era o meu precioso sangue.

Num certo momento, ele atingiu um nervinho. Tive impressão de que eu poderia saltar da cadeira e grudar do teto só usando as unhas. O conselho da categoria dos sádicos, digo, dentistas não poderia liberar uma anestesia geral para retirada desses tais dentes do siso? Gás hilariante não é mais utilizado? Será que ajudaria?

O martírio levou cerca de 70 minutos para acabar. Não agradeci, óbvio, e nem dei bom dia ao doutor. Preferi mandar ele não relar a mão em mim (Doutor, não leva a mal a grosseria, viu?). Depois passei uns cinco dias com a bochecha do Kiko, o colega do Chaves, e comendo por um canudo.

A explicação para esse dente danado ser chamado de "dente do juízo" é a idade em que ele aparece, por volta dos 18 anos, época em que a gente deveria tomar tento na vida.

Bom, semana passada eu permaneci deitada uns minutos no chão da cozinha porque caí quando tentava me balançar apoiando uma mão na pia e outra no guarda-comida... O meu dente do siso podia esperar eu fazer 55 anos pra dar as caras, não?

Fla Wonka às 02:03 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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