quinta-feira, 12 de junho de 2003

É namoro ou amizade?

Primeiro, os homens e mulheres ficavam em lados opostos do palco se observando com binóculos que pareciam de brinquedo – e, afinal, deviam mesmo ser, já que nenhum palco de programa de auditório pode ser tão grande!

Depois, o Sêo Silvio dava a largada e os pares se formavam. Tinha homem que saía correndo, literalmente, em direção a seu recém-descoberto objeto de desejo.

Aí, depois de uma breve conversa, todo mundo passava para um palquinho forrado de carpete vermelho e rosa, aos pares, rodopiando ao som de uma música qualquer, mas invariavelmente do Julio Iglesias (!).

"Em Nome do Amor", neto do "Namoro na TV" e filho do "Quer Namorar Comigo?", foi um dos melhores humorísticos da TV aberta, para quem superava o constrangimento de se imaginar no lugar de um dos pretendentes ou pretendidos que iam com a caravana de algum-lugar-muito-longe para participar de um rápido processo de acasalamento.

Os casais que davam certo eram presenteados com um buquê trazido pelo sempre solícito Roque, uma instituição dos programas de auditório do Sêo Silvio, ao grito do patrão: "Roque! Pode trazer as flores!".

Alguns ganhavam uma viagem ou saíam para jantar ou dançar na efervescente noite de São Paulo às custas do Sistema Brasileiro de Televisão. Cortesia do Sêo Silvio.

Esses programas considerados cafonérrimos parecem voltar à ativa com força total. Temos o "Fica Comigo", versão modernete da MTV. Hoje pré-estréia o "dateXpress", da Sony. E até os famosos parecem achar que um bom meio de arrumar um cobertor de orelha (acho esta expressão totalmente sem sentido!) é anunciar-se na TV.

Não sei se este seria um bom exemplo de "famoso", mas vá lá: Latino é um que anda à procura de uma parceira em pleno programa vespertino da Sônia Abrão. Outros programas tão bons quanto, como o "Superpop" da Luciana Gimenez e o "Domingo Legal" do Gugu, exibem quadros à la "procura-se uma noiva(o)" – geralmente combinados e sempre desbaratinados pelo atento colunista Ricardo Feltrin.

Mas nenhum deles, por mais insólito que seja, supera a matriz da qual foram xerocados, o inesquecível "Quer Namorar Comigo" e seus casais rodopiantes ao som de "Manuela". E a indefectível pergunta do Sêo Silvio: "é namoro ou amizade?"

Já não se fazem maus programas como antigamente...

Love songs are back again...

Em homenagem ao Dia dos Namorados, segue a lista com as melhores canções internacionais de amor, na minha modesta opinião. Como toda boa lista, essa se modifica quase semanalmente – ou toda vez que estou desocupada o suficiente para pensar no assunto.

7. Suspicious Minds, Elvis P.
O ritmo é bacana e o rei cantando "don’t let a good thing die" é de arrancar suspiros, não? Não tanto quanto quando ele saca da frase "you know I’ll never let you"...

6. Baby It’s You, Beatles
Os quatro guapos de Liverpool sabiam ser bem românticos quando queriam, e este lado B do "Please Please Me", apesar de pouco conhecido, é a melhor prova disso.

5. One for My Baby, Etta James
O vozeirão de Etta é posto a serviço da letra fofa que descreve a madame desabafando com um barman antes de dizer adeus a seu amor. Digamos que é uma espécie de "Garçom", do Reginaldo Rossi, mas em grande estilo...

4. There’s a Light That Never Goes Out, Smiths
Ok, eu tenho uma tendência dramática, sim. E daí? Uns acham o cúmulo da viadagem, mas eu acho o cúmulo da poesia dizer que morrer ao lado do seu amor é um modo privilegiado de morrer.

3. The Tracks of My Tears, Smokey Robinson
Essa foi eleita a segunda música de amor mais bonita do século, em mais uma pesquisa inútil feita por algum instituto norte-americano. Mas eu já me derretia muito antes com o estado do pobre homem que foi abandonado, está destruído por dentro, mas segue fingindo que está tudo bem.

2. Night and Day, Ella Fitzgerald
A minha versão favorita para esse standard que merece o título é a de Miss Fitz. A música de Sêo Cole Porter é tão boa que até com o Tiririca cantando ficaria audível. "And this torment won’t be through, till you let me spend my life making love to you" é de arrepiar os pelinhos.

1. Piece of My Heart, Janis J.
Tá bom, é meio carne de vaca, mas digamos que eu tenho razões sentimentais para eleger Dona Janis e sua gritaria rasgada de "Piece of My Heart" em primeiro lugar. E são tão boas razões que duram até hoje: o simples toque dos acordes iniciais me lembra a primeira vez em que o garoto para quem vou dizer "sim" em poucos meses me beijou.

Pronto, falei demais e ele vai ficar com vergonha. Eu também já corei. Mas poderia ser pior. Nossa música de amor poderia ser "Manuela".

Clara McFly às 05:43 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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