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Mulheres de capa e vida difícil Como garota, há uma coisa muito comum ao imaginário e às experiências dos meninos que é totalmente estranha e misteriosa para mim: o funcionamento das, digamos, casas de tolerância. Eu fico imaginando como será que as coisas rolam dentro desses recintos. Acho que deve ser um ambiente esfumaçado, onde as mulheres são bem misteriosas e andam com longas capas. Tá bem, talvez sem nada por baixo. Deve ter um monte de passagens secretas, das áreas comuns para os quartos, e acho que a comunicação é feita só por olhares, saca? Porque senão vira uma espécie de açougue, onde você escolhe a melhor peça de carne, e tudo fica um pouco deprimente. Todas as pessoas com quem divido essas minhas impressões sobre o funcionamento das casas da luz vermelha riem na minha cara e dizem que tá tudo errado. Eu já pedi a todos meus amigos que me levassem a um destes estabelecimentos para que eu pudesse matar minha curiosidade. Só um topou, mas tinha de ser na Kilt, uma "casa" caríssima aqui de São Paulo. Aí também já não dá, né? Outra coisa que acho estranhíssima sobre a chamada profissão das "mulheres de vida fácil" é exatamente essa nomenclatura: não deve ser vida fácil porcaria nenhuma. E deveria ser uma atividade registrada, já que, para mim, é um trabalho como outro qualquer, com dias bons e ruins, vantagens e desvantagens. Afinal, que é que tem de tão feio ou errado em vender o corpo? Um monte de gente passa 40 anos batendo cartão numa empresa onde faz algo que odeia. Pode não perceber, mas está vendendo a alma aos poucos. E entre vender a alma ou o corpo, preferiria vender meu corpinho. Depois eu compro outro numa liquidação do Wal-Mart, em cujas prateleiras se encontra de tudo mesmo. Menos uma alma nova. Ou oito ou oitenta Quando eu trabalhava no Itaim, todo dia passava em frente a um belo casarão de estilo colonial e muros, cuja única inscrição era uma xicarazinha de café na fachada. Eu jurava que aquilo era uma sociedade de admiradores do bom café, até que um amigo me alertou sobre a verdadeira natureza das atividades do lugar. Discretíssimo, o estabelecimento é o para lá de exclusivo Café Photo, casa da luz vermelha freqüentada só por ricaços aqui em São Paulo. Eu já ouvira falar dele, mas não sabia onde ficava. Isso é que é discrição! Por outro lado, no caminho para o lar doce lar de meu atual lerê-lerê, passo em frente a uma outra casa de alegria chamada, pasmem!, Tchella's. É como ter um cachorro e botar o nome de Rex, não? |
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