terça-feira, 10 de junho de 2003

Saco cheio de vil metal

Tenho problemas com dinheiro. Sim, eu até gosto dele - e, como diria Adam Sandler em "Afinado no Amor", eu uso, eu tenho um pouco, eu guardo num pote sobre a geladeira. Mas o fato é que não consigo me apegar a essas notinhas sujas e sem nenhum charme.

Sim, é claro que eu tenho necessidades e desejos que só saem do balão imaginário que eu tenho sobre a cabeça por causa da bufunfa (e quem me conhece bem sabe que o balão costuma trazer "viagem, viagem, viagem, cinema, viagem, pizza").

É só por isso, aliás, que eu acordo de manhã e, em vez de tomar o rumo do parque, da banca de jornal ou de Aruba, pego a nada bela Marginal Pinheiros e vou trabalhar.

Bom, mas o fato é que tem coisas que eu preciso e quero ter, e pago feliz por elas. Mas outras... Sinto muito, tem coisas que não me fariam sair da cama quentinha nem forçando com um macaco-hidráulico.

Não pago nem a pau: por garrafas de bebidas que custem valores de três dígitos ou mais.
Não tem preço: uma caipirinha repartida com gente legal numa mesa podrinha de bar.

Não pago nem a pau: por um automóvel que valha o mesmo preço de uma casa.
Não tem preço: ter o Uno Mille quebrado numa rodovia com um monte de amigos, ir parar em uma oficina no meio do nada e ainda achar isso muito, muito engraçado.

Não pago nem a pau: para um psico qualquer ouvir meus problemas. Não me xinguem, psicos, mas eu não gosto mesmo disso.
Não tem preço: bater papo por horas a fio com alguém que se importa e dá conselhos fofos sem cobrar nada além de um afago.

Não pago nem a pau: por peças de roupa que cobram o que cobram por causa da etiqueta.
Não tem preço: usar a mesma blusa de moletom pra dormir desde a oitava série e não desfazer dela por nada.

Não pago nem a pau: por s-e-x-o. Nem nunca vou pagar, mesmo que eu vire uma velhinha rica porém caolha, manca, malvada e solitária.
Não tem preço: um beijo muito bem dado por um rapaz muito doce, divertido e gentil.

Não pago nem a pau: por aparelhos eletro-eletrônicos de última geração capazes de tocar CDs, fotografar insetos, moer grãos e contar meus glóbulos vermelhos - tudo ao mesmo tempo.
Não tem preço: ouvir o disco dos Saltimbancos pela ducentésima vez na vitrola. E com chiado, que chiado é bacana.

Não pago nem a pau: propina de qualquer espécie.
Não tem preço: dizer pro guarda "eu precisei correr... Tô fugindo do homem sem braço que matou a mulher do Harrison Ford".

Fla Wonka às 02:46 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold