segunda-feira, 2 de junho de 2003

Tapados do mundo, uni-vos!

No desenho do Pica-Pau, quando algum personagem leva um tremendo fora ou passa vergonha na frente de todo mundo, sua cabeça costuma virar um grande pirulito onde lê-se SUCKER em letras garrafais. Isso já aconteceu muito comigo - tanto que eu praticamente pude sentir meu rosto se transformando no doce dos tapados para me denunciar. Confesse para mim: você já fez algo realmente estúpido?

Os tapados de nascença, grupo no qual orgulhosamente me coloco, são aquelas pessoas de boa vontade e de boa fé que simplesmente não conseguem deixar de fazer trapalhadas. Normalmente odiamos ser o centro das atenções, mas nossas ações tortas frequentemente nos colocam no meio da arena, e parece que todos os olhos do universo estão voltados para nós.

O primeiro ato realmente estúpido de minha autoria aconteceu quando eu era criança. Nunca fiz primeira comunhão na vida, mas todas as amiguinhas de rua tinham feito e um dia me convidaram para ir à missa. Como passear sempre foi comigo mesmo, topei. Chegou uma hora lá na missa em que foi passada uma cesta com dinheiro. Vi que as pessoas enfiavam a mão nela e entregavam para o próximo.

Quando a cesta chegou até mim, eu, que jamais tinha pisado numa igreja para aquele fim, achei que o dinheiro era para a gente pegar. E pensei "nossa, como Deus é bonzinho, dá dinheiro para quem vem na missa". Isso me comoveu e eu peguei a menor moeda que vi, de tanto que me simpatizei com Ele. Claro que levei bronca da beata ao meu lado.

Outra ação estúpida que me marcou também foi na infância, enquanto aguardava na fila das Lojas Americanas. Ao chegar nossa vez de pagar pela compra, meu pai viu a pilha de caixas de bombom perto da saída e me pediu para eu ir lá pegar uma. Fui, mas em vez de entregar o produto para ele por dentro da loja lotada, resolvi cortar caminho pelo lado de fora. Foram alguns segundos em que vivenciei o que é ser um meliante "de menor". Bem que achei estranho aquele guarda correndo atrás de mim.

Para meu desgosto, o fato de eu ter crescido não alterou muito meu talento inerente de cometer atos costrangedores, tipo passar mal no ônibus, tropeçar no cinema com um saco cheio de pipoca nas mãos, tirar meu piercing do nariz e não conseguir colocá-lo de volta. Já me acostumei. Mas teve uma ocasião em que eu verdadeiramente quis sumir.

Eu trabalhava em uma famosa agência de notícias cujo escritório se encontra em pleta Marginal Pinheiros, aqui em São Paulo. Como moro no mundo mágico de Oz (asco) e não tenho carro, a única condução até o escritório era o trem.

O trem em questão demora HORAS para passar e está sempre cheio. Um belo dia, ao descer a escada da estação para a plataforma, notei o dito cujo parado. Corri como uma louca e entrei. Naquele exato momento, as portas se fecharam. Olhei para o lado e, para meu espanto, não tinha uma alma viva no vagão. Olhei para fora, e todas as pessoas da plataforma estavam me olhando.

Pois é, o trem estava se recolhendo. Depois de uns segundos de pânico e da sensação do pirulito chegar com tudo, tive que quebrar aquele vidrinho e apertar o botão vermelho (aquele que diz "em caso de uso indevido o passageiro será punido"). O maquinista atendeu. Eu tentei explicar a situação, ao que ele me respondeu "xiiii".

O trem parou. Após alguns minutos, fui avisada que ele retornaria à estação para me levar de volta. Eu achei que a vergonha estava acabando, mas quando o vagão parou, veio um bando de funcionários e policiais, passando correndo no meio da multidão curiosa, só para abrir a porta para mim. Todos foram bacanas (o fato de eu estar de saia deve ter ajudado), mas no fundo deviam estar pensando "que tapada!". É...

Vivi Griswold às 08:25 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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