sexta-feira, 23 de maio de 2003

Senta que lá vem a história

Se existe algo no mundo que eu possa afirmar que conheço bem, esse algo tem de ser contos de fadas. Cresci ouvindo minha mãe e suas historietas cheias de príncipes e rainhas, bruxas e anões, castelos e calabouços. Mesmo tendo crescido, continuo fascinada por elas - acho o máximo a tradição oral que carregam e o fato da princesa ser sempre a mais forte.

Tenho cá meus favoritos: "Os Seis Cisnes", em que a garota tem de costurar casacos de urtiga para reverter o feitiço jogado em seus seis irmãos; "Rulpelstilskin", um gnomo chato que ameaça levar o bebê da princesa se ela não descobrir seu nome em tempo; "Carapuça de Junco", onde a monarca usa um disfarce para trabalhar de criada no castelo de seu príncipe encantado.

Semana passada, quando o calor senegalês deu descanso e um vento gelado soprava, fiz o que sempre faço em dias nublados: me enrolei na manta e peguei o livro de um dos meus autores favoritos, Neil Gaiman. A obra da vez é "Smoke and Mirrors", uma coletânea de historinhas curtas ao mesmo tempo adoráveis e perturbadoras, coisa que só ele é capaz de fazer com tamanha perfeição.

Pois bem. Abri o livro no último conto, "Snow, Glass, Apples", escrito pelo autor durante um vôo - quando eu ando de avião, durmo; já Gaiman escreve essas preciosidades. É a vida.

A história é narrada por uma rainha que vai descrevendo como conheceu o rei e se apaixonou perdidamente por ele, e como o casal era feliz e cheio de sonhos. Mas tudo foi por água abaixo por conta da presença assustadora de sua enteada. Aos poucos, o leitor começa a perceber que se trata do clássico "Branca de Neve", mas contado ao contrário. Ou seja, do ponto de vista da madrasta.

Ao invés da heroína gentil e maltratada pela viúva de seu pai, Gaiman mostra uma criança assustadora e cruel, que matou o a mãe, o rei e espera fazer o mesmo com a mulher dele. A rainha, para se proteger, manda dar um fim na menina, mas nada consegue fazer parar sua sede por sangue, nem mesmo quando um caçador é enviado à flotesta para arrancar seu pequenino coração.

No final, Branca de Neve e o prícipe enfeitiçado pelos poderes maléficos se vingam mortalmente da madrasta, a única que conhecia a verdadeira identidade da garota. Assim, a versão contada e recontada posteriormente é bem diferente da realidade sombria e esquecida... Imagine se eu soubesse dessa história aos seis anos! Ficaria noites e noites sem dormir, e provavelmente teria que fazer análise mais tarde.

Segundo Gaiman, ele quis reescrever o conto como um vírus: uma vez que a gente o lê, nunca mais será possível olhar para o original com os mesmos olhos de antes. Acho que conseguiu.

Vivi Griswold às 08:02 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold