quinta-feira, 15 de maio de 2003

Filosofia de trânsito

Como qualquer pessoa que mora em São Paulo e ainda possui coragem suficiente para botar os pés fora da porta de casa, costumo passar muito tempo presa no congestionamento. Adicionando isso ao fato de não possuir carro - e, portanto, ser sempre a carona ou passageira de ônibus - posso me distrair com as pequenas piadas diárias da metrópole: os adesivos com mensagens.

A chamada "filosofia de trânsito" há muito saiu da caipirice de pára-choque de caminhão para encontrar um lugar ao sol da capitar. Hoje, para ter uma frase estampada no vidro traseiro, não é mais preciso trabalhar levando carga para o interior. Basta ser boy, testemunha de Jeová, mano ou engraçadinho, ou as quatro coisas juntas.

Para analisarmos o fenômeno, vamos dividir os adesivos em seis principais categorias.

1) A religiosa

Os adesivos religiosos são conhecidos por carregarem as maiores pérolas filosóficas. Um dos mais encontrados por aí é "Dirigido por mim, guiado por Deus". Também temos "Ora que melhora", "Propriedade exclusiva de Jesus" e "Em caso de arrebatamento, este carro ficará desgovernado". Esse último confesso que demorou muito tempo até eu entender do que se tratava.

Há adesivos "sérios", ou melhor, aqueles que não são para ser engraçados a princípio. Normalmente são extratos da Bíblia e normalmente a empresa que os confecciona não conhece a mínima regra de português e acaba enfiando vírgulas em todos os lugares. Ex: "O Senhor, é o meu pastor, e nada, me faltará".

Ainda existem aqueles que extrapolam a linha do bom senso - para a nossa diversão. O melhor, até agora, é o que li em uma kombi na região da Rebouças: "Deus é jóia, o resto é bijoteria". Um crássico.

2) A de mano

Mano que é mano tem adesivos gigantescos com o nome do estabelecimento responsável pelo som "da hora" que "vitaminou" a "caranga". Na maioria dos casos, tal adesivo ocupa todo o vidro traseiro (em geral, fumê) e não sobra espaço para mais nada.

Mas o mano não se dá por vencido e acha sempre um lugarzinho no pára-choque para dizeres como "Nóis capota, mais num breca", "É velho mas tá pago", "Meu outro carro é um Mercedes" e "100% U 1000 D".

3) A de boy (e agroboy)

Boy costuma ser um pouco mais discreto na hora de exibir frases. Na maioria das vezes os adesivos são publicidades de estações de rádio, ou algo do tipo "Eu *folha* Campos do Jordão", ou ainda o personagem Johnny Bravo fazendo pose. Porém é fácil achar "No stress", "I'd rather be diving" e "No aula yes boteco".

Entretanto temos os chamados agroboys, aqueles que vão curtir um som country em Barretos todo o ano. Para eles a CAI (Central de Adesivos Irritantes) bolou o da "Estância do Alto da Serra" - pago um milk-shake para quem nunca viu um desses.

4) A anarquista

A categoria anarquista é aquela que pega as mensagens mais famosas e as distorcem. O exemplo mais ilustrativo é a singela mensagem "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo de tenho", reformulada para "Não tenho tudo que amo, mas foda-se".

O prêmio vai para "Distância do Alto da Serra", versão para a já citada praga agroboy. Ah, e lembre-se de "Eu atropelo duendes" e do excelente "Só stress", fabricados pelos alunos de engenharia de uma certa faculdade.

5) A politicamente correta

Apesar de ser a categoria mais sem-graça, não poderíamos deixá-la de lado. "Eu tenho vergonha dos vereadores corruptos de São Paulo", "Já fui assaltado" e "Velocidade controlada pelos buracos da Prefeitura" pipocam a toda hora e em todo lugar. Eu fiz minha mãe colar no carro dela um escrito "Gatos: amigos para 7 vidas" - não é fofo?

6) A profissional

"Consulte sempre um advogado". Ou poderia ser "assessor de imprensa", "dentista", "promoter", "nutricionista" e "motoboy". Resumindo, complete a frase com qualquer profisão e teremos 98% dos adesivos desta categoria. Outra frase famosa é "If you can read this, thanks to your english teacher" - como se precisasse ter feito 10 anos de CCAA para entender essa balela.


Se você optou por decorar seu carro com algum dos adesivos citados, não se sinta mal. Quem não tem um lado kistch que atire a primeira pedra. Ai, não tão rápido!

Vivi Griswold às 08:27 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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