terça-feira, 13 de maio de 2003

Pode repetir? – Parte 1

A princípio, achei que fosse só eu. Afinal, meus sentidos nunca foram dos mais apurados (os seis graus de miopia confirmam a afirmação). Algumas conversas ou situações constrangedoras depois me fizeram perceber que não. Todo mundo tem sua mishearded lyric para contar história...

Mishearded lyric é a expressão usada em inglês para designar aquela escorregadela que você dá ao entender uma letra totalmente diferente do que o cara de fato cantou numa parte da música.

O KissThisGuy (que está na nossa fabulosa seção de links) é todinho composto disso -- mas só de canções em inglês. O título do site veio da comum impressão de que Jimi Hendrix cantava "Excuse me, while I kiss this guy" ("Me dêem licença, enquanto beijo esse cara") em "Purple Haze", o que, embora próximo da pronúncia da letra correta ("Excuse me, while I kiss the sky"), anarquizou totalmente o sentido da música.

Pois eu tenho um punhado de letras que entendia mal -- culpa dos meus ouvidos pouco apurados e de uma imaginação descontrolada.

Para começar, na mais tenra infância, eu achava que naquela música do Heróis da Resistência que diz "eu te recriei, só pro meu prazer", o cara falava "eu te depilei, só pro meu prazer". E ainda ficava pensando: "Mas porque ele gostou tanto de depilar a moça?"

"Faroeste Caboclo", talvez devido à sua extensão, é uma das que mais deram nó nos meus pobres neurônios. Eu entendia que o Santocristo tinha atirado no Jeremias-Maconheiro-Sem-Vergonha com uma "Manchester 22". E que o bandidão traidor tinha "organizado a maconha", ao invés da roconha (também, que diabo de palavra é "roconha"?)

E tem a clássica "Noite do Prazer", do Claudio Zoli, que confundiu todo mundo. Afinal, quem ia adivinhar -- e o cantor falava bem rapidinho essa parte -- que a vitrola "tocava BB King" e não que alguém "trocava de biquíni" sem parar?

Confesso que até hoje perco o entendimento de alguns trechos de músicas, buracos esses que são preenchidos involuntariamente com a imaginação.

Mas embora eu seja pródiga nesse tipo de coisa, tenho de admitir que dois amigos me superaram no tema.

Afinal, entender o trecho de Bete Balanço que dizia "que a palma da sua mão mostrou" como "que a cobra d’água mãe mostrou" é superar qualquer contato com a realidade. Eu tiro o chapéu para essa.

Só não é melhor que trocar "proliferando ódio e destruição", parte de "Carta aos Missionários" do Uns e Outros, por "proliferando arco-íris-truição". Esse meu amigo (vamos chamá-lo de Dener para proteger sua identidade) não se contentou em montar uma frase com palavras que, ao menos, existissem. Teve que sacar do neologismo de justaposição com o arco-íris.

Se bem que, pensando melhor, se pode ter "roconha", não vejo problema com o "arco-íris-truição".

O assunto continua. Hoje, tratamos de misheards criados em português para letras na mesma língua. Amanhã, visitaremos as versões para lá de livres em português para letras em inglês.

Clara McFly às 04:32 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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