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Pode repetir? – Parte 1 A princípio, achei que fosse só eu. Afinal, meus sentidos nunca foram dos mais apurados (os seis graus de miopia confirmam a afirmação). Algumas conversas ou situações constrangedoras depois me fizeram perceber que não. Todo mundo tem sua mishearded lyric para contar história... Mishearded lyric é a expressão usada em inglês para designar aquela escorregadela que você dá ao entender uma letra totalmente diferente do que o cara de fato cantou numa parte da música. O KissThisGuy (que está na nossa fabulosa seção de links) é todinho composto disso -- mas só de canções em inglês. O título do site veio da comum impressão de que Jimi Hendrix cantava "Excuse me, while I kiss this guy" ("Me dêem licença, enquanto beijo esse cara") em "Purple Haze", o que, embora próximo da pronúncia da letra correta ("Excuse me, while I kiss the sky"), anarquizou totalmente o sentido da música. Pois eu tenho um punhado de letras que entendia mal -- culpa dos meus ouvidos pouco apurados e de uma imaginação descontrolada. Para começar, na mais tenra infância, eu achava que naquela música do Heróis da Resistência que diz "eu te recriei, só pro meu prazer", o cara falava "eu te depilei, só pro meu prazer". E ainda ficava pensando: "Mas porque ele gostou tanto de depilar a moça?" "Faroeste Caboclo", talvez devido à sua extensão, é uma das que mais deram nó nos meus pobres neurônios. Eu entendia que o Santocristo tinha atirado no Jeremias-Maconheiro-Sem-Vergonha com uma "Manchester 22". E que o bandidão traidor tinha "organizado a maconha", ao invés da roconha (também, que diabo de palavra é "roconha"?) E tem a clássica "Noite do Prazer", do Claudio Zoli, que confundiu todo mundo. Afinal, quem ia adivinhar -- e o cantor falava bem rapidinho essa parte -- que a vitrola "tocava BB King" e não que alguém "trocava de biquíni" sem parar? Confesso que até hoje perco o entendimento de alguns trechos de músicas, buracos esses que são preenchidos involuntariamente com a imaginação. Mas embora eu seja pródiga nesse tipo de coisa, tenho de admitir que dois amigos me superaram no tema. Afinal, entender o trecho de Bete Balanço que dizia "que a palma da sua mão mostrou" como "que a cobra d’água mãe mostrou" é superar qualquer contato com a realidade. Eu tiro o chapéu para essa. Só não é melhor que trocar "proliferando ódio e destruição", parte de "Carta aos Missionários" do Uns e Outros, por "proliferando arco-íris-truição". Esse meu amigo (vamos chamá-lo de Dener para proteger sua identidade) não se contentou em montar uma frase com palavras que, ao menos, existissem. Teve que sacar do neologismo de justaposição com o arco-íris. Se bem que, pensando melhor, se pode ter "roconha", não vejo problema com o "arco-íris-truição". O assunto continua. Hoje, tratamos de misheards criados em português para letras na mesma língua. Amanhã, visitaremos as versões para lá de livres em português para letras em inglês. |
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