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É tudo verdade Eu sou cheia de vícios. E acho que o menos nocivo deles é fumar. Adoro, por exemplo, telejornalismo norte-americano. Falo sozinha. Xingo no trânsito. Guardo fósforo usado dentro da caixa. E o pior de todos: se pego um telefilme baseado em história real, não consigo despregar os olhos da tela até o fim. É mais forte que eu. As tramas são sensacionais: o marido planeja a morte da mulher para ficar com o dinheiro do seguro e fugir com a amante; a mãe perde a guarda dos filhos, pois acham que ela os envenenou com anticongelante (?!) ou qualquer coisa do tipo ou a família tem de entrar para o programa de proteção à testemunha depois de presenciar uma matança na porta de casa. São coisas que, para mim, só ganhariam atenção daqueles programas mondo cane maquiadinhos e enlatados, do tipo "Arquivos do FBI", "Detetives Médicos" ou "Reportagens Investigativas", com direito à melhor e mais engraçada dublagem porca que já se viu na TV. O filme vai seguindo com aquelas reviravoltas pouco prováveis -- mas que aconteceram de verdade, e daí ser tão legal: cirurgias plásticas para escapar do perseguidor (ex-marido, na maioria dos casos), mudanças de cidades (onde geralmente se vai parar numa casa vizinha à do inimigo), carros que pifam no meio da neve. Tudo muito emocionante, mas nada que se compare ao triunfante desfecho. Não estou me referindo, aqui, ao fim do filme, quer dizer, "fim" com os personagens acertando a vida ou salvando a pele. Meu ponto alto e favorito nos telefilmes é aquela hora em que a tela fica preta e aparecem as frases que esclarecem o destino dos personagens ou onde eles estão hoje -- já que, como pessoas reais, sua existência não termina com o fim da projeção. É hora das sentenças do tipo: "Laurie Kellog cumpre pena perpétua pelo assassinato de seu marido na Penitenciária Feminina de Porangaba, Massachussets" [fade. Pausa.] "Seus filhos moram com a avó paterna, em Chatanooga, Tennesse" [fade. Pausa dramática] "Ela tem direito a visitas de Eileen e Mike duas vezes por ano" [fade. Sobem os créditos]. Depois disso, suspiro feliz no sofá. Sei como a esbórnia toda terminou. A glória completa é quando aparece uma foto da fulana de verdade. Aí, eu não preciso de mais nada. Só desligar a TV com aquela sensação de dever cumprido. Juro, ele era vizinho do primo da namorada do irmão da minha cunhada! E se os clássicos de sessão da tarde dos anos 80 fossem telefilmes? Correríamos o risco de encarar, na tela preta entre o desfecho da trama e a subida dos créditos, coisas como: "Hoje, ele aguarda execução na Penitenciária de Segurança Máxima de Kissimee, na Flórida" [fade, créditos]
"Ellen Griswold abandonou o marido para casar-se com Siegfried , que conheceu na última viagem em família. Hoje, ela vive em Las Vegas com o novo esposo e o tigre branco" [fade, créditos]
"Sem nada, voltou para o subúrbio, onde divide um cômodo com seus quatro avós -- de 98, 100, 102 e 103 anos -- e a mãe, a quem ajuda no trabalho de lavadeira" [fade, pausa] "Willy desapareceu misteriosamente desde que passou a fábrica para as mãos de Charlie. Há quem diga que ele foi visto na Jamaica, ao lado de um senhor robusto que muito lembrava o rei do rock" [fade, créditos]
"Hoje, mora numa confortável mansão em Mullholand Drive, de onde coordena campanhas pela Libertação do Tibete" [fade, créditos] |
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