Em time que está ganhando...
A crise de criatividade que atinge os estúdios de cinema com suas refilmagens, como bem compilou por aqui a senhora Flá Wonka num post passado, também passa pelo mundo musical, e não é de agora.
Versões para músicas são produzidas em larga escala desde que alguém percebeu que aquilo vendia -- e, na maioria das vezes, bem.
Sejamos justos: o conceito de "vamos fazer de novo" muitas vezes acrescenta algo de bacana à versão original e gera coisas legais.
Podem atirar latinhas, mas eu gosto muito de três canções bem populares que são regravações e, mais que isso, acho até que o trio é melhor que seus originais, apesar de, no caso de duas delas, as originais serem daquele tipo de pessoa que se convencionou chamar de "monstros sagrados" da música.
Preparados? Lá vai: são elas "Space Oddity", do Bowie, gravada pela Natalie Merchant, ex-vocal do 10.000 Maniacs; "Hey Joe", de Hendrix, na versão de letra e arranjo bem brasileiros do Rappa; e "Molly’s Lips", do Vaselines, na excelente e acelerada gravação do Nirvana, banda pela qual, deixo claro, nunca morri de amores.
Isso sem contar músicas bem fraquinhas ou de gosto duvidoso que, transformadas, ficaram legais para dedéu, como "Take on Me" do A-ha na versão ska do Reel Big Fish, a disco "I Will Survive" deliciosamente cool com o Cake ou de cortar os pulsos e se levar muito a sério com o REM (essa é versão rara, de show -- obrigada, LimeWire!).
Ou, ainda, o monte de covers punk das músicas mais improváveis, feitos por bandas como o Me First and the Gimme Gimmes. Já imaginou "Hotel California" ou "Don't Cry For Me Argentina" gritadas a três acordes? Pois eles fizeram.
Pois bem. Isso foi só para mostrar que, sim, há luz no fim do túnel no mundo das versões. Mas agora vamos ao pior, que é sempre minha parte favorita. Vamos às (a)versões!
Quem deixou fazer?
Elas atacam os mais variados artistas, em releituras de cantores e bandas igualmente variadas -- e, em alguns casos, muito precisadas de dinheiro, porque não é possível permitir que sua obra seja tratada assim!
Listo abaixo as sete piores (a)versões que já ouvi, em minha curta mas limpinha existência.
7. Uma Onda que Passou, da Tribo de Jah
Versão de "Santeria", do meteórico Sublime. Assim é fácil fazer versão: basta passar a letra no tradutor para os dois primeiros versos, acrescentar um tema romântico e pronto!
6. Because the Night em versão dance
A original é do tio Springsteen, mas nem sei o nome dos caras que cometeram essa versão. Sim, cometeram, porque nesse caso é um crime. O pior é que a peça, datada da onda poperô do início dos anos 90, martelava nas rádios.
5. Eu te Amo, de Zezé di Camargo e Luciano
A letra não é nada pior do que outras músicas românticas do mesmo naipe, mas é que imaginar "And I Love Her" dos Beatles cantada pelos irmãos é engraçado mesmo. E olha que eles não fizeram a pior versão dos Fab Four, visto que William Shatner (sim, você leu direito) já cantou "Lucy in the Sky With Diamonds". Aliás, o quarteto inglês é um dos campeões de versões, gravadas por gente de estilo tão díspar quanto Jim Carrey e a banda Gomez. Mas isso é assunto para outro post...
4. Astronauta de Mármore, do Nenhum de Nós
David Bowie passou parte de sua vida tão louco que, há poucos anos, descobriu em casa gravações que fizera nos anos 70 e não tinha a menor idéia de que existiam. Isso explica porque ele permitiu a regravação de "Star Man" nessa incompreensível versão da banda gaúcha.
3. Se a Gente se Entender, da Angélica
Limito-me a perguntar: "o que essa menina fez?!". Simples: assassinou uma das mais belas (apesar de insistentemente tocadas) baladas da era indie do Cranberries, "Linger". "Do you have to, do tou have to, do you have to let it linger" virou "Bem mais fácil, é mais fácil/Se a gente se entender".
2. Triste Mas eu Não me Queixo, do Surto
Ah ah ah ah ah! Eh eh eh! Sigh. Pfffffrrrr… AH! AH! AH! Ah ah ah ah ah ah ah ah ah ahaaaaa! Ih ih ih, ah ah ah ahahahahahaha!… Ops, desculpe. Era para ser sério?
Bem, essa é uma versão dos senhores do Surto (sim, os caras do "Cabeção") para "Californication", e faz parte das versões-rimadinhas, onde vale falar nada com nada só para casar com a pronúncia da original. No caso, "Dream of Californication" virou "Triste mas eu não me queixo-mmmm", com a puxada nasal no fim para rimar.
1. Não Acredito, Lulu Santos
Olha, eu não tenho nada contra o tio Lulu, mas essa foi demais e mereceu o primeiro lugar por duas razões: primeiro, ele inverteu totalmente o sentido da música original, "I’m a Believer", composta por Neil Diamond e famosa com os Monkees, que fala de um cara que não acreditava no amor e, depois que se apaixonou por uma garota, passou a acreditar. Mas isso não é o pior.
Segundo, porque a música abre com os versos mais surreais que eu já ouvi: "Eu achei que o amor fosse mole; algo assim, feito requeijão". Eu já vi compararem o sentimento do amor a muitas coisas, mas a essa pasta cremosa de queijo é a primeira (e, benza a Deus, única) vez.
Bom, não se pode dizer que não foi original...