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Travestis no porta-malas, celulares em chamas e uma garota chamada Raquel Se tem uma coisa que me põe doida, além de ter de lavar as mãos com aqueles horrorosos sabonetes líquidos de banheiro público, é receber aqueles e-mails com baboseiras. Não, não estou falando dos muitos -- e sempre bem-vindos -- e-mails do pessoal que escreve para a gente para falar do Garotas. Refiro-me àquelas invencíveis correntes, que cobrem os mais variados temas, indo de crianças à beira da morte a assaltos praticados por travestis que se escondem no porta-malas do seu carro (?!). Isso sem contar as mensagens de amizade, amor, patriotismo, indignação ou qualquer outro estado de espírito, montadas com imagens de flores e bebês. A cada ano são criadas novas lendas, versões da era digital das velhas histórias da loira do banheiro, do Reverendo Moon e das balinhas Van Melle aditivadas com cocaína por algum moço mau. Neste ano, duas me chamaram atenção. São, de fato, tão criativas que tive de dar o braço a torcer e deixar explodir as gargalhadas presas por meu cenho franzido, vencendo a cara de mau-humor que faço ao topar com esse e-lixo na minha caixa postal. A primeira é sobre os celulares que pegam fogo no posto de gasolina. Dizia o e-mail que 'uma amiga de uma vizinha, prima do namorado do concunhado do meu irmão' teve o rosto todo queimado depois de atender o celular enquanto abastecia. Aparentemente, esse (f)utilíssimo objeto essencial à vida moderna entra em combustão espontânea quando usado próximo a uma bomba de gasolina. Será que quem passa essas coisas adiante não se pergunta: "mas que base científica isso pode ter?" ou "será que se fosse verdade, não teria alguém processando a empresa ou o posto, ou não teria saído no jornal?". Parece que não. A outra é sobre uma 'nova modalidade de assalto' -- aliás, várias correntes de alerta começam assim. Mas essa só pode ter sido produto de alguma mente perversa. Acontecia assim: ao deixar o carro com o manobrista em barzinhos da região da Dom Pedro, em Santo André, o cara parava seu carro na rua e abria o porta-mala para um traveco entrar. O pobre moço ficava lá dentro, todo montado (imaginem um travesti enfiado na mala dum Ka, por exemplo), esperando até o manobrista levar o carro de volta -- o que, geralmente, acontece lá para as quatro ou cinco da manhã. Aí, ele desmontava o banco traseiro e passava para dentro do seu carro -- tudo isso com o veículo em movimento --, surpreendendo o motorista e dando procedimento ao assalto. Não é demais? Você olha no retrovisor e vê carros, olha para frente e faz uma curva, olha de novo no retrô e um cara com dois metros de altura e a cara da Susana Gimenes aparece apontando uma faca para você! E eu me pergunto: por que os travestis esperariam até quatro horas amassados num porta-mala para te assaltar? E por que especificamente travestis? Ah, o cara que bolou essa é mesmo um gênio! Quem diabos é Raquel? Na categoria 'minha filhinha está morrendo', o destaque fica para a impressionante história da Raquel. Aposto que todo mundo que tem um endereço eletrônico já recebeu essa, sobre uma garotinha chamada Raquel de dez meses (já faz bem uns dois anos que ela conta com a mesma idade) que precisa de uma operação para curar um câncer cerebral. O e-mail continua, impávido, dizendo que a cada três pessoas para quem a mensagem for repassada, os pais da Raquel receberão 32 centavos de dólar da Aol e de uma tal ZDNET. Como se fosse possível a Aol ter esse controle sobre o envio, e como se fosse viável que eles pagassem 32 centavos de dólar a alguém para reenviar e-mails. O bacana é que tem até uma foto da Raquel anexa à mensagem. E eu fico pensando na pobre garotinha da foto, que vai ser motivo de chacota quando estiver na escola e esses hoax tiverem sido desmascarados. Na dúvida… Bem, tenho de registrar que já recebi pedidos de ajuda verdadeiros pela internet. Mas há uma regrinha básica, resultado da aplicação do bom-senso, que pode e deve ser aplicada para separar o joio do trigo. Basta ver se há um contato no final da mensagem. Um telefone, ou e-mail, para confirmar a história. Se não tiver, provavelmente é paia. Como você vai ajudar alguém, dar informações sobre uma criança desaparecida ou enviar remédios para um bebê se não tiver como entrar em contato com a pessoa? Se tiver um número, ligue e cheque se é verdade. De todas as dezenas de vezes em que recebi essas correntes, duas eram verdadeiras, sobre crianças doentes -- e valeu ajudar. O resto é truque de pessoas com muita criatividade ou muito precisadas de endereços eletrônicos para mala direta. |
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