quarta-feira, 30 de abril de 2003

Viva! Viva! Viva!

Minhas noites de sábado nunca foram tão divertidas como quando eu contava tenros sete ou oito aninhos de idade.

Nessa época, meus pais saíam com um outro casal para ver um filme ou jantar fora, e deixavam a prole de ambas as duplas solta no apê dos amigos.

Eram cinco pirralhos: Tati, Renato -- filhos do casal de amigos, minha irmã Rê, meu irmão João e eu.

Aguardávamos ansiosamente por essas noites. A função das meninas, como mais velhas da trupe, era comer, dar comida para os pequenos e botar os moleques para dormir -- o que fazíamos o quanto antes, para nos divertirmos depois.

"Nos divertirmos depois" é que era a parte boa. Havia um ritual: primeiro, brincar de Playmobil. Essa parte gerava sérias disputas, porque a Tati tinha um playmobil pretinho chamado Jedi e todo mundo queria o danado.

Depois, era hora do "Viva a Noite". Acompanhávamos a disputa entre homens e mulheres, cujo prêmio era um troféu de neon em formato de lua de gosto duvidoso, mas que eu queria um exemplar mais que tudo na vida.

Ainda grudadas na telinha, cantávamos "Meu Pintinho Amarelinho", "A Dança da Galinha Azul" e a música do Bugalu. E, toda vez que o Gugu chamava o intervalo berrando "Viva a noite!", respondíamos "Viva! Viva! Viva!".

No intervalo entre esse fabuloso programa de variedades e o inesquecível Goulart de Andrade, que aparecia à frente do "Comando da Madrugada" junto ao cameraman Capeta, fazíamos o "Campeonato do Bolo Esganiçado".

A mãe da Tati comprava uma série de guloseimas que minha mãe sempre desprezava na despesa mensal. Então, uma vez sozinhas no apê e de posse daquela portinha mágica recheada de gostosuras, não podíamos deixar passar a chance de fazer alguma coisinha escrota. Foi quando tive a idéia do "Campeonato do Bolo Esganiçado".

Dividíamos um bolo pullman (daqueles tipo frapé, parecidos com a barba do Tony Ramos em "Laços de Família") em três partes iguais. Vale contar que usávamos uma régua para maior exatidão.

Daí, cada uma botava seu pedaço num pratinho e punha as mãos para trás. No três, quem comesse o nacão de bolo primeiro (mas tinha que engolir tudo) era a campeã da noite. E não valia beber refrigerante junto: era a seco.

A noite terminava com a gente vendo filmes impróprios para nossa idade -- ainda mais para garotas. É dessa época meu primeiro contato com as imagens de Emannuelle e com o pornô soft de filmes cujos títulos são sempre mais ou menos iguais, com combinações de palavras-chave como sedução, paixão, selvagem e alguma espécie de flor.

Isso é que era uma infância saudável.

Clara McFly às 05:57 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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