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Profissão: escritório Quando eu era pequena, brincava de escritório no murinho do gás lá de casa. “Escritório” consistia em fazer fichas de clientes e dar a eles talõezinhos de cheques grampeados e furadinhos com palito de dente para fazer o picote do canhoto. Ah, sim. Atender telefones e anunciar as ocasionais chamadas imaginárias numa voz beeem tediosa e pastosa, como a secretária da firma do meu pai, também compunha a brincadeira. Às vezes, minha imaginação para inventar clientes e seus nomes acabava, então eu tentava convencer meu irmão, cinco anos mais novo (à época eu tinha uns 8 ou 9, acho) a ser meu cliente. Tudo que ele tinha de fazer era adentrar a salinha do “escritório”, ir até a mesa de atendimento e responder perguntas de formulário, tipo “nome?”, “idade?”, “profissão?”, etc, tudo bem inventadinho previamente. O problema é que o João Paulo só queria participar se ele pudesse chamar “Magáiver”. Pode? Eu ficava indignada. Ninguém podia se chamar Magáiver, não existia isso, só o moço da televisão que fazia bombas com um teco de chiclé mastigado e um pedaço de fio dental. Acho que a gente assistia muita televisão. E eu tinha que continuar falando com clientes-fantasmas, porque NINGUÉM PODE SE CHAMAR MAGÁIVER. Ninguém se chama assim Esses nomes que parecem inventados me perseguem. Recebi um release que começava assim: “A Tralalá Comunicação, de Fulana de Tal e Wylla Orvalho…” Pára o mundo que eu quero descer. Nem deu para ler até o fim. Wylla Orvalho só pode ser um nome inventado, daqueles que eu criava para servir como cliente das minhas brincadeiras de escritório no murinho do gás lá de casa. Se eu dissesse a vocês “Olha, não pude ir lá no nosso encontro porque uma velha amiga minha, Wylla Orvalho, me ligou”, vocês iam acreditar? E hoje, vindo para o trabalho, vejo um cartaz de um cantor (ou cantora?) chamado (a?) Tutti Baê (?!). E aquele chefão dos inspetores de armas da ONU, Hans Blix? Parece nome de herói de video-game. Depois, acham ruim quando digo que meu primogênito vai se chamar Kunta Kintê, em homenagem àquele primor da dramaturgia internacional intitulado “Raízes”. |
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