Um italianinho bom de drible e com final trágico; uma garota fininha aterrorizada pela filha do dono da livraria; uma mocinha que aprende a não subestimar nem superestimar a medida da dor; uma menina que fechava os olhos e esperava encontrar tudo diferente ao abri-los e um homem atormentado por um corvo (que não o Jubileu, do Pica-Pau).
Pronto. Esse extenso e aparentemente desconexo parágrafo apresenta os personagens de cinco dos meus contos favoritos.
E olha que eu leio, viu? Minha mãe, a fada, me alfabetizou em casa mesmo, antes que eu juntasse anos suficientes para me matricular numa escolinha.
A pobre se encheu de me ouvir perguntar: "o que tá escrito ali? E ali? E acolá? E nesse livro grande, de 500 páginas, com capa de couro e essa inscrição dourada gozada na frente?"
Acho que foi aí a gota d'água para que ela corresse a comprar uma Caminho Suave (sim, no meu tempo elas existiam!) e me ensinasse a decifrar esses misteriosos tracinhos sozinha.
De rótulo de xampu (já viram que todos têm lauril éter sulfato?) ao grande-livro-grande-com-capa-de-couro-e-inscrição-em-dourado, passando por folhetos da TFP que aqueles homens esquisitos com paninhos pendurados me entregam na rua (tenho um pouco de medo deles), costumo ler tudo que me cai à mão.
Eventualmente, cai um romance ou qualquer obra mais aproveitável. Ou até livros de português. Daí juntei essa seleção dos contos. O quê? Não conhece nenhum? Pera lá que a gente já resolve isso…
Sopa (deliciosa) de letrinhas
Gaetaninho, de Alcântara Machado
A linguagem é deliciosa. E quando ele fala da tia Peronetta que se mudou para o Araçá? É o melhor eufemismo para morte que já vi! A imagem da vizinhança com as roupas domingueiras e a expressão "amassou o bonde" também são dignas de nota. Ficou a fim de ler? Clica aqui!
Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector
Tia Clarice dispensa comentários. É uma das minhas autoras favoritas para sempre. O conto, que li pela primeira vez aos 12 ou 13 anos, gravou a menina gorducha cheia de balas no bolso como um personagem que eu, magrela e tarada por leitura, encontrei muitas vezes na vida. Continuo encontrando, aliás. Leia aqui!
Para Maria da Graça, de Paulo Mendes Campos
Esse eu li lá pelos 14 anos, mas só percebi a grandeza da história recentemente. Pode-se dizer que enquanto Freud explica, Paulo Mendes fica dando uns toques. E que belos toques! Se todo mundo lesse esse conto e aprendesse a não ultrapassar as medidas da própria dor, o mundo seria melhor. Aproveita que tem o conto aqui.
Menina, de Ivan ngelo
Sabe a Penny Lane de "Quase Famosos"? Ela é a garota que eu mais queria ser – no mundo do cinema. Porque, no universo dos livros, eu pagava qualquer coisa para ser a protagonista desse conto. Ela tinha várias táticas interessantíssimas, como fechar os olhos, contar até dez e abri-los de repente, esperando ver alguma coisa muito diferente no mundo. Fora sua relação de amor e ódio com a palavra "desquitada". Infelizmente, não encontrei o conto na internet. Mas ele também está naquela compilação famosa, "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", reunida pelo Ítalo Moriconi.
O Corvo, Edgar Allan Poe na tradução de Fernando Pessoa
Tá, eu sei, esse é uma poesia! Mas abri uma exceção -- acrescento um conto quando fizer minha lista de poesias favoritas e ficamos empatados, pronto. "O Corvo" não tinha como dar errado: um poeta sombrio e bacana traduzido por um escritor que, de tão bom, tinha quatro personas diferentes. Um refrãozinho inesquecível no inglês ("Quote the raven, 'Nevermore'") e uma sacada maestral no português: note aqui, com os dois textos lado a lado, que Pessoa-Caieiros-Reis-Campos NUNCA cita o nome da musa da poesia. Dava para deixar de fora da lista? Nem.