segunda-feira, 11 de agosto de 2003

Trilha sonora para horas impróprias

Música ao vivo em praças de alimentação de shopping é como o picles dos sanduíches do McDonald's: a gente até que engole sem reclamar muito, mas não faria falta alguma se fosse banida do cardápio para todo o sempre.

Costumo sentir um misto de compaixão e vergonha por aqueles trabalhadores que tentam ganhar um dinheirinho digno cantando para pessoas que estão mais interessadas em colheradas de comida e raramente encontram tempo ou disposição para dar conta da apresentação musical.

Nessa situação embaraçosa, os dois lados são vítimas. A culpa é do ser que teve a brilhante idéia de que é preciso ter trilha sonora para almoçar ou jantar qualquer gororoba daquelas praças de alimentação safadas. Mas não bastava ligar o rádio ou colocar uma fita k-7 de música incidental. Tinha que contratar um pobre aspirante a artista para pagar mico na frente de todo mundo.

O espectador, por sua vez, é obrigado a pegar fila nos fast-foods, procurar um lugar com a bandeja na mão, acomodar as sacolas, comer e conversar amenidades com o acompanhante, tudo ao som de um repertório dos infernos que vai de Djavan a Iron Maiden, passando por Santana e Roupa Nova. E sempre tem uma do Raul Seixas. E aquela do Oswaldo Montenegro ("eu amava/como amava/algum cantor"). Realmente, não há estômago forte que consiga digerir a mistura, vá...

Para piorar uma situação que por si só já é ruim, alguns cantores resolvem "agitar" (quem sabe não tem um empresário de gravadora no meio da multidão, né?). Eles conversam, apresentam cada música, agradecem a cada intervalo - como se estivessem num Rock In Rio da vida. Não estão: não tem banda, nem platéia gritando, nem isqueiro aceso sendo balançado ao ritmo da melodia.

Sempre saio do recinto com peninha, porque a realidade pode ser cruel para cantores de praça de alimentação. E, na maioria das vezes, saio também com alguma música do Jota Quest grudada na cabeça como chiclete, que provavelmente irá me perseguir pelo resto da semana. É o preço a ser pago por ambas as partes.

Vivi Griswold às 11:01 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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