sexta-feira, 8 de agosto de 2003

A rainha das minhas tardes

Mary Clarissa Agatha Miller. Foi com esse nome pomposo e adorável que nasceu Tia Agatha Christie, a mulher que dominou boa parte da minha adolescência com assassinatos, roubos, intrigas e até algum sangue. Quem disser que eu sou bobinha vai sentir o poder do cianureto ou o corte do meu punhal, hein?

Toda minha relação com a Rainha do Mistério começou por meio do famoso Círculo do Livro. A mãe de vocês também entrou para essa máfia literária? A minha sim, e por muitos anos, felizmente. Não lembro bem como funcionava o sistema, mas sei que podíamos escolher muitos livros por mês – e sempre que faltava inspiração, lá íamos eu e mamãe apostar na Agatha.

Tem sempre alguém que torce o nariz quando digo que já li cerca de 30 livros dessa saudosa senhora. Fazem aquela cara de “hum, você come maria-mole pensando que é tiramisu”. Sabe o que mais? Eu comecei a gostar de ler com a coleção Vaga-Lume, me lancei na área da Agatha Christie com prazer e nem por isso caí nas garras do Paulo Coelho. E não critico quem caiu também.

Acontece que as obras de Agatha são puro deleite. Onde mais eu poderia ter aprendido palavras como rododendros (é uma flor), sebe (sinônimo de cerca-viva), charneca (o mesmo que pântano) e gazebo (aqueles refúgios de jardim)? E onde mais essas coisas meigas seriam parte de homicídios sanguinários desvendados por velhinhas sacanas como Miss Marple e detetives arrogantes como Hercule Poirot??

Para devorar um livro de Agatha Christie eu não precisava de mais que três dias. Daí a mania de carregar um exemplar sempre que ia passar um fim de semana fora de casa. Uma rede, um copo de leite, duas bolachas e uma obra da doce Agatha... As tardes eram felizes assim.

Posso aproveitar o ensejo e contar meus preferidos – assim vocês contam os seus depois e formamos uma graaaande família de adoradores de Ms. Christie? “A Casa Torta”, “Cem Gramas de Centeio”, “O Cavalo Amarelo” e, mais que todos, “A Casa do Penhasco”. Desafio qualquer mortal a descobrir o assassino nesse último. A mulher era um gênio do mal, só digo isso.

Mas o espírito maligno da senhorinha inglesa só se manifestava na literatura mesmo. Agatha casou com um coronel (Archibald Christie, daí o novo sobrenome) aos 24 anos e teve uma filha. Ela começou a escrever quando arrumou emprego numa farmácia – e, com muito tempo vago e a inspiração dos venenos da prateleira, passou a criar os casos letais de ficção.

Agatha se divorciou do primeiro marido (e desapareceu por duas semanas depois disso, já mostrando que era meio piradinha) e casou novamente com um arqueólogo. Foi aí que ela cunhou a fantástica frase “é ótimo estar casada com um homem dessa profissão, porque quanto mais velha eu fico, mais ele se interessa por mim”. É uma tia muito da divertida ou o quê? Ah... Eu, minha mãe, Hercule Poirot e Miss Marple achamos...

Agatha.jpg
Agatha, a grande criadora de rododendros e charnecas
Fla Wonka às 02:24 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold