quinta-feira, 31 de julho de 2003

História pra boi ouvir

Sensacional como vários sucessos que dominaram a música brasileira são baseados apenas em singelas historinhas que poderiam acontecer comigo, com você, com todo mundo. Chego à conclusão que, para entrar nas paradas, basta contar um “causo”. E nem precisa ser lá muito interessante.

Se for, claro que é muito melhor e mais fácil de emplacar, porque todo mundo gosta de saber sobre a vida picante de uma menina que muda de nome e passa a usar “salto 15 e saia de borracha”. Mas nem sempre as historinhas são assim. Às vezes elas versam apenas sobre o cotidiano tranqüilo de gente um tanto bizarra. O pior é que fica tão bom...

Eduardo e Mônica – Legião Urbana
Interessante como uma história que não surpreende nem um pouco pôde virar hino! Tá, a garota era um pouco mais velha e esperta que o rapaz, mas ninguém imaginou que um casinho tão sem sal pudesse se transformar em hit. Quem, afinal, liga se ela era de Leão e ele tinha 16???

Faroeste Caboclo – Legião De Novo
Céus, esse é um épico musical que só consigo ouvir inteiro se for acompanhado de paciência e um copo de qualquer bebida alcoólica... Nada contra a música, que é mesmo um marco nacional, mas a riqueza de detalhes sobre a vida do ferrado Santo Cristo me deprime já na primeira estofe...

Dezesseis – Legião Outra Vez
Esses moços de Brasília tinham uma certa fixação com histórias de pessoas piradas, não? Nessa aqui eles apelaram, porque ouvir sobre os últimos momentos do suicida motorizado botava meio mundo pra baixo. Pior que história sem graça, só história fúnebre.

Natasha – Capital Inicial
Já a turminha do Capital não achava que a vida de jovens desestruturados precisava virar, necessariamente, uma balada chorosa. A menina se tornou uma perva? Sim. Mas eles cantam isso com a maior alegria! Como se todas as pervas fossem assim tão serenas e desencanadas.

Melô do Marinheiro – Paralamas do Sucesso
Taí uma história de viagem bastante... bisonha. Tanto era bobalhona e previsível, que a canção virou um quase-reggae – assim o ritmo ficava lento por natureza e ninguém reparava que, no fim, não tinha mesmo muita coisa para contar sobre a tal bad trip do descascador de batatas.

Jackie Tequila – Skank
Demorei anos para entender a vida da Jackie por completo. Acho, na real, que apesar de ter ouvido essa música trocentas vezes, ainda não entendi porque o pai dela teve que sair de Noa Noa em uma canoa e bebendo leite de leoa. Ah, vai ver era só pra rimar!

Marvin – Titãs
Mais um moço de má sorte... Assim como o Santo Cristo e o Johnny do Opala metálico azul, Marvin passou poucas e boas para engordar os cofres dos Titãs. O mais engraçado é ver um bando de boyzinhos entoar “Às vezes acho que não vai dar pé”... Ah, tá.

Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones – Engenheiros
Bom, só o nome da música já é uma bíblia! Mas todo mundo decorou os versos, mesmo os dificinhos “Mandado foi ao Vietnã/ Lutar com vietcongues”. Soube de gente que sempre cantou “Mandado foi ao Vietnã/ Lutar com o King Kong”! Não é que a história fica até melhor assim?

Você Não Soube Me Amar – Blitz
A rapaziada da Blitz era exímia divulgadora de histórias esquisitas. Nessa, Tio Evandro e sua gangue decidem contar sobre o encontro com uma garota. E leva novecentas estrofes pra pedir comida e bebida! Um recorde de “blá, blá, blá, blá, blá... ti, ti, ti, ti, ti, ti, ti, ti...”

Adelaide – Inimigos do Rei
Todo mundo aí com a mão no coração? Prontos para prestar homenagem a uma das maioooores pérolas do cancioneiro brazuca? Eu adoro a história da anã paraguaia! Porque se é pra contar passagens exóticas da vida, essa é a melhor canção a fazer isso! Vamos lá, em coro:

“Andava na rua à noite, totalmente só
Vez ou outra via coisas em bancas de jornal
Pensava na gaja, sem motivo me deixou
Quando de repente ouvi alguém pequeno gritar:
’Qualquer cola, poesia, mariola, quem vai?
Quem vai?”

Fla Wonka às 02:19 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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