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Para ele eu vou dizer sim Ontem eu falei das minhas paixões de papel, os personagens de filmes, desenhos e até quadrinhos por quem me apaixono. Para que vocês não achem que eu sou uma completa desmiolada (ou para confirmarem o fato de vez), hoje vou mostrar que eu também gosto de gente de verdade. A primeira paixonite aguda da minha vida aconteceu aos 10 anos de idade. Antes disso, talvez houvesse um garotinho simpático com quem eu construísse castelinhos de areia no parque do pré, ou para quem eu emprestasse o lápis verde-água do meu conjunto de 36 cores da Faber Castell na primeira série, mas não me lembro. O garoto em questão tinha a hoje hilária alcunha de Peixinho (não me perguntem), olhinhos verde escuros e um sorriso fofo. Todas as garotas da quarta série eram apaixonadas por ele, incluindo esta humilde escriba. Claro que o máximo que consegui com o Peixinho foi passar uma excursão da escola (em que a gente desceu o caminho da serra velha de Santos a pé) conversando com ele e fazendo piadas e imitações. No ginásio, passei a ter olhos compridos para o Fabio, que entrou na escola na quinta série. Esse foi grave. Não só fui apaixonada perdidamente por ele por uns três anos, até a sétima, como também dividia a paixão com minha melhor amiga, Roberta. Fazíamos coisas ridículas e inevitáveis para a idade, como trocar bilhetes e escrever o nome do menino nas nossas agendas com as mais variadas técnicas aprendidas na Educação Artística, como com borrachas e grafite ou com letras em perspectiva. Com o Fabio a coisa foi um pouquinho mais adiante. Ele até me pediu em namoro, como convinha aos idos de 1990, mas eu não tive coragem de aceitar por dois motivos: a Roberta e a vergonha de beijar na boca. Depois, ele mudou para a turma da manhã e eu continuei à tarde. Só o reencontrei no colegial, quando fui estudar de manhã também. Aí, eu já sabia beijar na boca e a Roberta não gostava mais dele, mas o garoto já estava comprometido com a Vanessa, ciumenta que só o diabo. Droga. Tive de arrumar outra paixão platônica. Para proteger sua identidade, vamos chamá-lo de Jarbas. Essa história é a melhor: a escola inteira sabia que eu era caidinha de amores pelo rapaz, inclusive, é claro, ele próprio, que sempre fez questão de ser muito meu amigo. E só. Eu chorava escondida, me enchia de esperanças se eu espirrasse e ele falasse "saúde", escrevia trechos de músicas românticas na agenda e esperava algo acontecer. Esperei pelos três primeiros anos do colegial – até que na metade do quarto ele atacou a Roberta, que estava num estado de percepção deveras alterado, digamos, por conta de ingestão em demasia da água que passarinho não bebe. Ela foi na minha casa no dia seguinte e me contou tudinho. Passei seis meses ignorando o garoto por completo, sendo que nessa época a gente ainda tinha uns amigos em comum e se encontrava bastante (na verdade, em São Bernardo, todo mundo se encontra bastante toda hora). Resultado? Num carnaval em que estávamos no mesmo baile, o menino veio chegando, me alisando, pedindo desculpas e eu, tonta e cansada de bancar a durona, me derreti toda. Cinco minutos depois, eu estava nos famigerados camarotes da Associação dos Funcionários Públicos de São Bernardo do Campo, realizando meu sonho de três anos e meio. O problema é que eu estava esperando o príncipe do cavalo branco e o Jarbas, é claro, não era mais que um garoto de 18 ou 19 anos com hormônios em ebulição. Quando ele pegou minha mão e pôs num lugar que príncipes-dos-cavalos-brancos não põem jamais as mãos de suas amadas, a paixonite aguda platônica que eu alimentei por todo o tempo caiu por terra. Não que eu nunca tivesse feito aquilo. Já tinha feito serelepices bem piores -- e mais gostosas. Nos intervalos da paixão platônica pelo Jarbas, apostava nuns namoradinhos para dar vazão aos meus próprios hormônios adolescentes (que atire a primeira pedra quem não sentiu os efeitos dos tais) e para tentar desencanar de vez do topetudo. No final daquele mesmo ano, deixei de besteira e me apaixonei por outro garoto, que eu já conhecia há um tempão. Um homem, na verdade, mas com lindos olhinhos de menino. Sem bobagens de escrever nome na agenda ou esperar coisas impossíveis acontecerem. Mais de cinco anos se passaram, estou prestes a encarar o juiz de paz ao lado deste mesmo garoto e afirmo com convicção que ele não é o homem dos meus sonhos. É o homem da minha vida. Ainda bem! Clara McFly às 05:54 PM |
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