sexta-feira, 25 de julho de 2003

Conte até três e escreva o que ouviu

Tem certas coisas que se perdem com as mudanças de uma casa para outra e com as limpezas anuais nos armários, e pelas quais você toparia qualquer parada para reaver. Uma delas é meu caderno de enquete da 5ª série.

O quê?! Você não sabe o que é uma enquete? Bem, o tal item era bem comum nos meus plúmbeos anos de pré-adolescência, essa fase em que você nem bem brinca mais de playmobil (só escondida), nem bem beija na boca (mas finge que beija).

A brincadeira da enquete consistia num caderno onde eram escritas uma pergunta por página, sobre os mais variados temas e sempre dentro do espírito das coisas essenciais e de profunda utilidade para o desenvolvimento humano.

Depois de fazer a sua seleção de perguntas, você mesma respondia a todas aquelas indagações e começava a fazer a brochura circular entre os amigos, que seguiam o mesmo ritual.

No fim, virava uma diversão ler a impressionante bagagem cultural que podia estar contida naquelas respostas dadas por uma trupe de pirralhos perdidos.

Dentre as clássicas da enquete (que algumas desavisadas da minha classe grafavam como "inquete", ao melhor estilo escreve-como-se-lê), estavam as seguintes questões (aqui acrescidas de comentários).

1. Escreva seu nome e apelido
Essa era fácil de responder. Mas sempre tinham os engraçadinhos que botavam coisas como Odette Roitmann ou Madrake.

2. Você já beijou?
A maioria esmagadora dizia que sim. Os mais indiscretos (ou mais criativos) davam detalhes. Outros, bem-humorados, diziam sim e completavam: "minha irmã, minha mãe, minha avó".

3. Qual sua banda ou cantor/cantora favorito?
Nessa, pipocavam as pérolas New Kids, Information Society, Kon-Kan, Roxette, Paula Abdul e Milli Vanilli, além do indefectível Legião Urbana. Um ou outro desavisado chegou a escrever Placa Luminosa, sem saber que, desde então, esse era o maior queima-filme que alguém podia registrar.

4. Qual seu filme favorito?
Entre as meninas, "Ghost – Do Outro Lado da Vida" era unanimidade. Os meninos se dividiam entre filmes dos Trapalhões (corroborando a teoria do desenvolvimento feminino ser mesmo mais acelerado -- mas nem tanto) e algum genérico do Schwarzzie, como "Comado para Matar", "Predador" ou "O Vingador do Futuro".

5. Quem você levaria para uma ilha deserta?
Ídolos do momento, como algum dos integrantes dos Novos Garotos do Quarteirão, eram os mais lembrados. Para os meninos, a última capa da Playboy da época bastava. Como se eles soubesse o que fazer com ela quando chegassem lá!

6. Quem você deixaria numa ilha deserta?
Gozado. Desde aquela época, um dos mais votado era o Maluf! Como essa fuinha continua na política? Uma vez escrevi que deixaria o Ricardo, um menino que tinha acabado de entrar na minha classe, e ele devolveu a resposta botando meu nome lá também. Sabe o que é engraçado? Ele é um dos meus melhores amigos até hoje!

7. Conte até três e escreva o que ouviu
A função dessa pergunta ainda não está bem clara para mim, mas que o resultado podia ser divertidíssimo, ah, isso lá podia! Saíam coisas do tipo: "…e essa é a diferença do escaleno e do isósceles" ou "Pega minha caneta de dez cores que caiu aí?"

8. Deixe uma mensagem para a dona desta enquete
Essa era a razão pela qual você só entregava sua enquete para seus amigos responderem. Assim, só se leriam mensagens como "Te adoro muitão" ou "Estou de olho em você", com aquele desenhinho de um boneco espiando por cime de um muro. Símbolos de anarquia e tentativas de desenhar a mãozinha do Hang Loose também eram obrigatórias.


E é por essas e outras que eu daria tudo (ou quase) para encontrar um caderno universitário de capa dura, com folhas coloridas, que abrigava esse pedacinho escroto mas inesquecível da minha vida -- uma época em que usar jaqueta de veludo forrada com pelo e camisetas rosa choque (de preferência, da Pakalolo) eram o máximo.

Clara McFly às 07:22 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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