sexta-feira, 25 de julho de 2003

Dura vida de mascote gratuito

O pior nível hierárquico que um bicho pode atingir em sua existência é ser dado de graça em feiras de animais. É como ser um legume e, em vez de virar salada, virar enfeite de buffet. Lembram deles? Todo mundo tem histórias dos “pintinhos e peixinhos grátis” na memória – e quase todas comprovam que a idéia atraía público, mas promovia um holocausto no mundo animal.

Era só ver anunciar na tv que a feira tinha chegado ao Parque da Água Branca (recanto paulistano que costumava organizar o evento) que eu partia para cima do meu pai implorando por uma visita. Lá eles exibiam vacas de valor, touros do tamanho de jamantas, cavalos e até uma ou outra ovelha. Mas a bicharada toda não me emocionava tanto quanto o prêmio da saída.

Lembro de ter recebido muito mais pintinhos do que peixes. O problema começava aí, aliás: minha irmã tem pavor visceral de qualquer coisa com penas, de galinhas, pombas e pintinhos bonitinhos até travesseiros recheados desse artigo.

Assim, meu pai deixava eu e meu irmão levarmos os bichos para casa, mas o acordo era mantê-los longe da minha irmã. Dá para fazer isso numa casa de 90m²? Não! Minha irmã sofreu muito encontrando pintinhos malignos e ameaçadores pelos cantos, coitada.

Mas caso muito pior aconteceu a uma garota que eu conheço e que também adorava os tais pintinhos de feira. Num ano, ela se apegou tanto no filhote que deu nome, fez casinha de caixa de sapato, andava com ele no colo todo o tempo. Até que um dia, sentada na cadeira de balanço da vó, o pintinho pulou das mãos dela em direção ao chão. Na tentativa de pegá-lo, bom... digamos que uma das curvas da cadeira ficou com as peninhas amarelas grudadas. Triste, hã?

Bom, teve ainda uma outra conhecida que se apaixonou loucamente pelos pintinhos de uma geração posterior, que vinham pintados de cores variadas. Tinha verde, azul, rosado, tudo menos pinto amarelo. O diabo é que, mais tarde, eles deixaram de ser uma trupe de pintinhos new wave e viraram um bando de frangos pretos sem graça nenhuma. A moça teve trabalho para aceitar a mudança, diz até que precisou de terapia.

Pais e mães de toda a cidade quase precisaram de tratamento também por causa dos animaizinhos distribuídos em feiras. Que criança ia entender que seu bichinho querido seria um cadáver aquático depois de uns meses ou o almoço de domingo depois de crescido???

Pensando bem, acho que lá em casa eles me enganaram algumas vezes dizendo que meus franguinhos tinham sido doados. Acho que comi vários deles sem saber! Saco... Pior do que ser pintinho de feira, só ser uma garota que sente saudade dele...

Fla Wonka às 02:22 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold