sexta-feira, 25 de julho de 2003

Alice num país sem maravilhas

Eu queria muito escrever uma história infantil. O problema é que ainda não tive grandes idéias - e confesso que tampouco gastei mais do que cinco minutos pensando no assunto. Por enquanto fico só na vontade, que se intensifica quando algo do gênero cai em minhas mãos. A última surpresa foi "Coraline", ou "o-livro-que-gostaria-de-ter-escrito-se-eu-pudesse-escolher". Tá, não foi bem uma surpresa. Afinal, o que esperar de uma obra assinada por Neil Gaiman?

Para quem não conhece, Gaiman é o homem (o mito, a lenda) por trás de "Sandman", uma das séries de quadrinhos mais cultuadas entre os entusiastas dessa arte. O bacana é que ele passou dos gibis aos livros, escrevendo diversos contos e alguns romances para o deleite dos admiradores de sua narrativa perturbadora e sensível. Mesmo quando terminamos a leitura, um certo gostinho agridoce permanece.

Trata-se de um livro para crianças, teoricamente. Sua linguagem é acessível e deliciosa de se ler, e você não precisará de mais do que uma tarde chuvosa para devorá-lo inteiro, como eu fiz. Porém, lembre-se de que ainda estamos falando de Neil Gaiman e, por trás dessa fachada inocente, há uma história assustadora.

A garotinha Coraline se muda com os pais para um casarão antigo transformado em pequenos apartamentos numa dessas reformas modernas. Ela é muito curiosa, e nos primeiros dias ocupa seu tempo desbravando o bosque próximo ao novo lar. Mas logo a brincadeira perde a graça e, para piorar, começa a chover. Assim, Coraline é obrigada a ficar dentro de casa.

Como seu pai e sua mãe estão sempre ocupados e não há outros meninos ou meninas para ela se divertir, a pequena aproveita a oportunidade para vasculhar a residência. Ela nota que uma das portas dá para uma parede, resultado da tal reforma. À noite Coraline escuta ratinhos indo e vindo através da passagem, que agora está aberta...

Claro que a menina atravessa a porta. O que ela não esperava era sair num lugar exatamente igual à própria casa. O problema é que sua mãe e seu pai são outras pessoas: seres apavorantes com botões no lugar dos olhos e que se alimentam de besouros. A mãe, em particular, dá muito medo - principalmente quando quer que Coraline fique lá para todo o sempre, presa num espelho junto de outras crianças que já tiveram suas almas roubadas.

Da mente de Gaiman sempre saem coisas incríveis. Nesse caso, uma espécie de "Alice no País das Maravilhas" moderno, ainda que no mundo proposto por ele não exista maravilha alguma. Coraline é uma heroína melancólica numa atmosfera dark e confusa. Mas o escritor é tão bom que consegue transformar, apenas com palavras, uma canção de ninar em um filme de terror - ou vice-versa.

E por falar em filme, "Coraline" está programado para virar um longa-metragem em 2004. Diz a lenda que Michelle Pfeiffer encabeça o elenco e Henry Selick (de "O Estranho Mundo de Jack") comanda a direção. Enquanto isso, nem preciso falar que vale a pena garimpar o livro, né? Infelizmente essa jóia ainda não foi lançada no bom e velho português, mas se sua curiosidade for como a minha (e a da menina na história), clique aqui. Você nunca mais vai olhar para um botão com os mesmos olhos.

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Até a capa da medo!
Vivi Griswold às 09:25 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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