quinta-feira, 24 de julho de 2003

Diversão Ilimitada

Zelda dividia o apartamento com seus dois namorados surfistas e uma criança adotada, trabalhava como repórter, passava os dias atormentada pelo chefe rabugento e mantinha uma engraçada amizade com a mãe de um bebê extraterrestre.

Para quem não viveu nos anos 80, essa história beira a insanidade. E como "Armação Ilimitada" era deliciosamente insano! Até hoje me surpreendo com a excelência do meu programa favorito - e não me conformo que uma obra-prima dessa esteja aos poucos caindo no esquecimento. Não podemos deixar isso acontecer!

Depois de muito enrolar, decidi escrever um artigo sobre "Armação", o que para mim é uma tremenda responsabilidade. Mas como faz cerca de 15 anos que a série global parou de ser exibida, tentei vasculhar informações sobre ela na Internet. Você acredita que desliguei o computador quase de mãos vazias? Como algo tão bom é apagado da memória televisiva sem mais nem menos? Quem topa uma campanha para a Rede Globo lançar a atração em DVD? Eu seria a primeira da fila.

Digo isso porque era completamente viciada no programa, e me recordo perfeitamente de quando assisti ao último capítulo. Tinha 11 anos e passava as férias em Piracicaba, e meu primo mais novo queria ver algo em uma outra emissora, bem na hora da despedida! Comecei a chorar porque simplesmente não poderia perder o grande final por nada nesse mundo e, depois de muita briga, venci pelo cansaço - e pelo choro, que se intensificou quando ouvi aquela música pela última vez.

Zelda Scott (Andréa Beltrão) era de longe minha favorita. Se eu fiz jornalismo, sim, a culpa é um pouco dela. A garota morava com seus DOIS namorados, Juba (Kadu Moliterno) e Lula (André de Biasi), super amigos e sócios na empresa Armação Ilimitada - que resolvia qualquer tipo de encrenca, principalmente se pudessem incluir pranchas de surfe, asa-deltas ou motocicletas. Tinha ainda o pequeno Bacana (Jonas Torres), achado num circo e adotado pelos três. Completavam o cast a esotérica Ronalda Cristina (Catarina Abdalla), que tinha um filho alienígena, e o Chefe (Francisco Milani), editor do jornal Correio do Crepúsculo.

"Armação Ilimitada" permaneceu três anos no ar (de 85 a 88) e fez história. Principalmente por ser destinado inteiramente a um público jovem, o mesmo que hoje tem de engolir "Malhação" e outras coisitas do gênero. Eram histórias de aventura narradas em ritmo de videoclipe antes da era do videoclipe, usando e abusando de efeitos gráficos (lembra dos balõezinhos de pensamento do Bacana?), de linguagem rápida e inteligente.

E realmente beirando a insanidade. O Chefe, por exemplo, aparecia cada vez de um jeito, dependendo de como Zelda se referia a ele. Se a repórter falava "ah, hoje o senhor está uma flor", ele aparecia com uma fantasia de margarida; se ela dizia "Chefe, isso é o fundo do poço", a mesa virava um buraco e vinha a voz dele lá de baixo. Outro ponto alto era o filho extraterrestre de Ronalda Cristinha: em um truque digno de "O Bebê de Rosemary", a criança dificilmente era mostrada. Só ouvíamos seus gritinhos e risadas, e o carrinho que acendia e soltava fumaça de gelo seco. Hilário.

Os nomes dos episódios também merecem um parágrafo à parte. "Dama de Couro" (tirando sarro do seriado policial que passava na época, "Dama de Ouro"), "Jambo Para Matar" (zoando o personagem musculoso mais em moda naquele momento), "Meu Amigo Mignum" (o primo pobre do detetive de camisa havaiana) e o insuperável "O Caso Júnior Filho", só para citar alguns.

Por tudo isso, "Armação Ilimitada" só encontrou seu fim no coração de filhos ingratos. Pois no meu, a memória da série continua vivinha da silva. E agora estou feliz, porque se outra pessoa ávida por relembrar tal preciosidade fizer a mesma procura que eu fiz ontem em algum sistema de busca, esse humilde textinho poderá aparecer. A gente faz o que pode, né?

armacao.gif
Nem uma imagem melhorzinha eu encontrei...
Vivi Griswold às 08:47 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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