terça-feira, 22 de julho de 2003

A vitrola gira e a saudade bate

Pode me chamar de saudosista: eu sou mesmo! Acho que não teve época tão legal para ser criança quanto os anos 80. Pelo menos no quesito músicas infantis, nós estávamos bem servidos. Quem passou os tenros anos em décadas posteriores teve de se contentar com canções pseudo-infantis (mal) cantadas por loiras apresentadoras de programas de TV. Tadinhos.

Pensando nisso e remexendo na cachola, juntei os fragmentos de memória e formei uma lista das músicas que eu mais ouvia e gostava quando era criança. Uma lagriminha escorreu a cada lembrança, isso devo confessar. Portanto, não se assuste se eu me alongar no texto de hoje. É que a saudade também é compriiiiiiiiida...


"É Tão Lindo" - Simony e Roberto Carlos
O Balão Mágico fez tão parte da minha infância quanto a escola, o Atari e o picolé Fura-Bolo. Lembro muito de todas as músicas, e quase sinto a capa do disco materializada em minhas mãos de tanto que guardei a sensação. Claro que "Superfantástico" é o hit eterno, mas esse dueto da Simony com o Rei é a favorita. A letra descrevia um bicho deveras estranho, com bigodes de foca, nariz de tamanduá, bico de pato, orelhas de camelo e jeitão de sabiá. Mas ele era amigo, então devíamos gostar dele do jeitinho que era. E o melhor era a conversa entre os dois no meio, com a estrela-mirim chamando o Roberto Carlos de "tio". O refrão para cantarolar: "É tão lindo/Não precisa mudar/É tão lindo/Deixa assim como está"...

"Pra Ver Se Cola" - Trem da Alegria
Esse era um clássico sobre a paixonite escolar, aquela pela qual todo mundo com um coraçãozinho no peito já passou. O legal é que todas eram platônicas - até porque o beijo parecia uma coisa nojenta e as meninas achavam meninos chatos e vice-versa. O bacana mesmo eram os pequenos detalhes, como os descritos na música: "Entre borrachas e apontadores/Mora o meu grande amor/Colei seu nome com várias cores/No livro que ela me emprestou/Mandei mil balas e mariolas/Roubei as flores todas do jardim/Eu faço tudo na minha escola/Pra ver se ela gosta de mim". Daí entrava a Amanda com sua voz estridente e cantava "Cola o teu pezinho no meu/Pra ver se cola/Cola o meu retrato no teu/E me namora".

"O Carimbador Maluco" - Raul Seixas
Uma das letras mais sensacionais de toda a música popular brasileira, arrisco dizer. Apesar de ser o carro-chefe do especial infantil "Plunct Plact Zum", transmitido pela Rede Globo naquela década tão adorável, Raul Seixas fala de um jeito engraçado sobre burocracia - um assunto que entendemos bem, mas sabemos que não faz parte do universo infantil. Veja um trechinho: "Tem que ser selado, registrado, carimbado/Avaliado, rotulado se quiser voar!/Pra Lua: a taxa é alta/Pro Sol: identidade/Vai já pro seu foguete viajar pelo universo/É preciso meu carimbo dando o sim". Ah, se toda funcionária emburrada de cartório tivesse só um décimo desse bom-humor, o mundo já seria um lugar bem mais agradável de se viver.

"História de uma Gata" - Nara Leão
Um fenômeno ocorre com dois discos da minha infância: eu consigo gostar deles ainda mais hoje! O primeiro é "Os Saltimbancos" (e o outro está aí embaixo). Desde sempre meu bicho favorito era a gatinha, lindamente interpretada por Nara Leão. Não podia ser diferente, né? O refrão da música-tema da felina serelepe contém o refrão mais bacana e verdadeiro sobre esses bichos tão incompreendidos: "Nós, gatos, já nascemos pobres/Porém, já nascemos livres". Lindo! Fora que chorava de dó da gata, que tinha toda a mordomia de um animal de estimação, com filé e almofada, mas por causa da "cantoria" foi expulsa e passou a viver nas ruas. Pelo menos, continuou cantando, feliz.

"A Casa" - Boca Livre
"Era uma casa/Muito engraçada/Não tinha teto/Não tinha nada". Quem não reconhece esses versos nasceu e cresceu em Marte. A preciosidade fazia parte do disco "Arca de Noé", o outro integrante da dupla de melhores discos da minha infância. Todas as letras foram escritas por Vinícius de Moraes, e interpretadas pelos maiores nomes da música popular. Também poderia citar "O Gato", cantada por Marina (antes de ser Lima) e "O Pato", por MPB-4. Chorava muito com as tristes "A Corujinha", interpretada por Elis Regina e "São Francisco", por Ney Matogrosso. E o que era aquela capa? Nós podíamos recortar os desenhos (com tesoura sem ponta e cabo colorido) e montá-la como quiséssemos (com cola branca não-tóxica). Uma delícia.

"João e Maria" - Chico Buarque
Tá, essa não era para ser infantil. Mas minha mãe cantava para mim e eu adorava a história de faz-de-conta que a letra propunha. Hoje eu entendo como a música é triste pois fala de corações partidos e amores desfeitos, mas continua me arrepiando e me lembrando de minha infância. É adorável, principalmente quando ele canta "Agora eu era o rei/Era o bedel e era também juiz/E pela minha lei/A gente era obrigado a ser feliz/E você era a princesa que eu quis coroar/Era tão linda de se admirar/E andava nua pelo meu país...". Mas daí a princesa deixa o príncipe, que tem o mundinho destruído. Criança também precisa saber que a vida, de vez em quando, não é o mar de rosas que gostaríamos.

"Ciranda da bailarina" - Edu Lobo & Chico Buarque
Lendo hoje a letra encontrada na Internet depois de muita procura, garanto que é difícil achar versos tão inspirados e engraçados. Como fazia balé bem na época da composição, início dos anos 80, eu achava simplesmente o máximo saber que bailarina não tinha calcinha rasgada, nem bereba, lombriga, frieira ou marca de vacina. Imaginava a bailarina como aquele ser perfeito e reluzente, com saia de tule. E, puxa, como eu queria ser assim. Um trechinho para acabar: "Futucando bem/Todo mundo tem piolho/Ou tem cheiro de creolina/Todo mundo tem um irmão meio zarolho/Só a bailarina que não tem/Nem unha encardida/Nem dente com comida/Nem casca de ferida/Ela não tem".

disquinhos.gif
Vontade de desenterrar a vitrolinha!
Vivi Griswold às 10:22 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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