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20 mil léguas sobre a cidade Eu devo admitir que sou uma garota rodada – no bom sentido, claro! Digo isso porque, de casa até o trabalho, enfrento 30 quilômetros na ida e mais 30 na volta, a bordo do intrépido Deep Purple. Nem precisa de calculadora para dizer que são 300 quilômetros semanais – sem contar as eventuais visitas ao papai, lanches com as Garotas e horas-felizes com outros amigos. Daria quase uma viagem até o Rio a cada cinco dias. Uau. Enquanto amaldiçôo essa vida passada entre faróis e buzinas, crio uns passatempos para distrair minha mente vã e pueril entre um pé no freio e uma troca de marcha. Já matei um bom tempo criando siglas para as placas dos autos que estão na minha frente. Assim, ó: MAI vira Matei Alguém com um Isqueiro. CRO pode ser Creme de Rocambole de Ontem ou Caída Repentina no Ovo. CSP é Comunidade da Salssaparrilha e Popeline. E assim por diante. A regra é quanto mais bizarro, melhor. O problema é que, depois desse último, os parcos neurônios responsáveis pela área de criação bizarra no meu cérebro morreram. Parti para a tentativa de identificação de batidas. Perícia de acidentes, para falar mais bonito. Via uma batida num carro e tentava adivinhar como diabos aquilo teria acontecido. O ruim é que a maioria dos amassados é bem óbvio: está no centro da traseira do carro, ou na lanterna. Era difícil aparecer alguma com a qual valesse a pena gastar o pensamento, como tetos amassados (?) ou capôs com vincos exatamente no meio, sem nenhuma marca ao redor do carro (esse deve ter sido atingido por um satélite de pequeno porte que despencou do céu). Agora passo meu tempo batendo papo com os vendedores de farol. No cruzamento da Rebouças com a Henrique Schaumann, duas avenidonas respeitáveis de Sampa, funciona um verdadeiro shopping. Comecei a fazer amizade com o pessoal ao agir como minha mãe me ensinou a agir com qualquer pessoa: educadamente, cumprimentando e respondendo ao que me perguntam, ao invés de fechar o vidro correndo, acelerar o carro e olhar para o lado oposto de onde eles vêm, carregados de flores, bobs esponjas infláveis ou escovas revo styler. Agora, o Sêo Félix (que vende panos de prato na Pamplona x Paulista) já me informa se tem guardas de trânsito multando por ali; o Vagner (que vende acessórios para celulares na Tancredo Neves x Vergueiro) me presenteou outro dia com um prendedor de cintos de segurança e a Andréia (flores, na Rebouças x Schaumann) está de licença para ter seu quarto bebê. Do qual, aliás, mal posso esperar para saber o sexo! |
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