sexta-feira, 18 de julho de 2003

Salve Ferris, sempre

Não me lembro quando foi a primeira vez em que assisti a "Curtindo a Vida Adoidado". Só sei que faz algum tempo e, naquela época, já falava com orgulho que esse era o filme mais bacana do mundo. Hoje, depois de todos os anos que se passaram - e meu gosto por cinema se intensificou e evoluiu bastante - continuo achando a peripécia de Ferris Bueller uma das melhores coisas que já vi.

Simplesmente não me canso da obra-prima de John Hughes, além de sentir que gosto dela cada vez mais. A mais recente assistida deu-se na semana passada, quando a Sessão da Tarde resolveu relembrar os velhos tempos e eu pude ver Ferris pela centésima vez. Quer saber? Continuo apaixonada pelo adolescente com carinha angelical e irônica ao mesmo tempo, que resolve cabular um dia de aula inventando uma doença e arrastando consigo seu melhor amigo Cameron e sua namorada Sloane pelas ruas de Chicago.

Você não precisa ter motivo algum para assitir ao filme e se deliciar também. Mesmo assim, vou lhe dar 10:

10) A falsa doença
Ferris inventa uma febre para ficar em casa. Mas ele não é tão primário a ponto de só colcar o termômetro perto de uma lâmpada. Seu plano é requintado e engloba mãos suadas (molhadas com água da torneira mesmo), um boneco de tamanho natural debaixo das cobertas, uma fita K-7 com sons de ronco, um teclado com efeitos sonoros como tosses e espirros... Claro que é preciso também ter aqueles pais patetas, que acreditam em tudo o que o filhinho fala. Profissional é apelido.

9) O diretor e a secretária
Sr. Ed Rooney é o diretor que quer botar as mãos em Ferris para escrever seu nome na história da escola. Stra. Grace é a sua secretária estúpida que guarda lápis na cabeleira e se acha muito eficiente. Juntos, eles protagonizam cenas engraçadíssimas, como quando o "pai" de Sloane liga para a diretoria dizendo que a avó da menina morreu. Rooney acha que é Ferris disfarçado, xinga o cara, mas Ferris liga na outra linha e prova que não tem nada a ver com aquilo. Quer dizer, quase.

8) Os diálogos
Como se não bastasse todo o resto, esse filme ainda tem diálogos incríveis. Poderia fazer um texto só sobre eles, mas vou deixar um exemplo falar por si mesmo: "Eu realmente tenho uma prova hoje. Não era mentira. É sobre socialismo europeu. Quero dizer, sinceramente, para quê? Eu não sou europeu. Eu não planejo ser europeu. Então quem liga se eles são socialistas? Eles podiam ser anarquistas fascistas. E isso não ia mudar o fato de eu não ter um carro". Precisa mais?

7) A Ferrari
Taí a coisa que o pai do Cameron mais ama na vida. Só que o plano de tirar Sloane da escola inclui buscá-la com um carrão. Quer carrão maior que esse? O problema é que o trio confia o automóvel a um guardador e CLARO que o malandro não deixa de dar umas (muitas) voltas. A passagem em que ele voa com a Ferrari ao som da música-tema de "Star Wars" é memorável. Porém, não mais do que a cena em que a máquina vermelha atravessa a janela e é completamente destruída no barranco.

6) O golpe do restaurante
O trio resolve almoçar no restaurante mais caro da cidade. O recepcionista, uma figura com um bigodinho safado, desconfia um pouco quando Ferris diz ser Abe Froman, um senhor que tem reserva marcada. "O senho é Abe Froman?", ele pergunta. "O Rei da Salsicha de Chicago?". O protagonista e sua já aclamada cara-de-pau afirmam que sim e, depois de vencidos alguns obstáculos, os três descolam o tal almoço grátis - tudo na conta do cara da salsicha.

5) A irmã chata
Por que todas as irmãs dos clássicos dos anos 80 são umas pestes? Só sei que isso tornou-se uma constante, e Jeannie é a pior delas. Não contente por ter ganho um carro (Ferris só levou um computador), a estrupícia resolve desmascarar o irmão para ganhar o posto de queridinha dos pais. Claro que ela também só se mete em confusão, mas no final fica boazinha e ajuda nosso herói. Tudo por causa do Charlie Sheen, que faz uma ponta engraçadíssima, bem no finzinho.

4) A imitação do pai de Sloane feita por Cameron
"Com o perdão da palavra, Sr. Rooney, mas o senhor é um saco". Cameron, fazendo voz rouca e brava, se diverte imitando o pai de Sloane ao telefone. Ferris lhe dá a missão (uma vez que ele próprio já está marcado), e o amigão tenta convencer o diretor a liberá-la por conta da morte fictícia da avó. Cameron dá umas escorregadas que custarão a Ferrari de seu pai - mas também, o que seria do resto do filme se não fosse exatamente isso?

3) A cena do museu
Se eu não me engano é a única cena do filme sem um diálogo sequer. Mas para quê, se ela é todinha embalada por "Please Please Please Let Me Get What I Want", dos Smiths, tocada só por instrumentos? É a trilha sonora perfeita para um momento perfeito. Destaque para a hora em que Cameron olha para um quadro e a câmera vai dando closes alternados nas duas figuras, até que chega na trama da tela e no azul dos olhos do personagem. Poesia pura.

2) As conversas com a câmera
Uma das melhores sensações que o filme passa é fazer o telespectador sentir-se parte da história. O truque genial acontece através dos diálogos que Ferris tem com a câmera - ou melhor, com as pessoinhas do outro lado da tela. Há diversos momentos em que os três personagens estão conversando e Ferris vira e fala alguma coisa para nós! Pena que a Rede Globo anda insistindo em cortar o final dos créditos, quando o personagem fala "Vocês ainda estão aí? Vão embora!".

1) A parada ao som de "Twist And Shout"
Desculpe, mas o primeiro lugar não poderia ser outro. Ferris invade a parada no centro da cidade, sobe em um dos carros alegóricos, pega o microfone e faz as ruas chacoalharem com esse clássico famoso pela interpretação dos Beatles. Uma curiosidade: apesar do filme ter feito a música voltar às paradas, Paul McCartney não gostou nadinha da homenagem, principalmente porque foram adicionados arranjos de metais. Ele caiu no meu conceito quando eu soube disso.

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A filosofia da minha vida
Vivi Griswold às 10:01 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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