|
||||||||||
|
||||||||||
O intrépido Deep Purple Já vi grupos de ajuda para todo tipo de dependentes, das mais diversas espécies: alcoólatras, toxicômanos, mulheres ciumentas, viciados em sexo, jogatina e tudo mais que se possa imaginar. Apesar disso, nunca encontrei um grupo direcionado ao meu vício: eu sou completamente dependente do meu carro. Primeiro, fui do Lanterna Verde, meu Prêmio de cor óbvia, que tinha mais gambiarras elétricas que barraca de camelô sem licença. Atualmente, o responsável por meu intenso leva-e-traz é o Deep Purple. E olha que o Deep Purple é apenas um Corsa 1000, geralmente sujo, tadinho, não só coberto com uma camada de poeira por fora como cheio de coisas indizíveis por dentro: folhetos de empreendimentos imobiliários que já devem ter sido tombados, balas de iogurte carinhosamente apelidadas de "matusas", devido à sua idade avançada, e até cascas de banana em franco processo de decomposição. O fato é que amo meu carro e definitivamente não sei viver sem ele – fato que comprovei nas vezes em que ele foi para o pronto-socorro dos automóveis, aos cuidados do doutor Carlão. Mas não sou do tipo que tem saco para ensaboá-o toda semana ou checar óleo, água e calibragem dos pneus a cada dez dias. Apesar disso, o Deep sempre me foi fiel. Nunca quebrou numa estrada erma. Já estourou um pneu na Anchieta? Já, não vou mentir para você. Já ferveu na mesma estrada, que pego religiosamente todos os dias para chegar em casa? Já, também não vou mentir. Mas ambos os fatos aconteceram perto de telefones públicos, e pude chamar o socorro mecânico, personificado por meu futuro esposo, nas duas vezes. A bem da verdade, Purple já esteve até nas mãos de meliantes, quando fui assaltada perto de casa. Nessa época, ele tinha um rádio que funcionava, mas parecia de brinquedo, daqueles que vêm com maria-mole na feira. O toca-fitas já tinha morrido há tempos. O dial era analógico e o botão de sintonia caíra, deixando-me sem opções a não ser usar um clipe engenhosamente encaixado no parafuso à mostra para trocar de estação. Quando a Polícia Rodoviária achou o carro e ligou na delega para avisar, a primeira coisa que meu irmão disse foi: "Reza para eles terem levado o rádio, senão você vai ser motivo de chacota". Quando trouxeram o possante (arrã!) até a delega, estavam faltando meu chaveiro da Florzinha, minha bolsa, celular, agenda e documentos e outros pertences do Dani, amigão que estava lá comigo (uma fita com "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", o primeiro livro da graphic "Estrada para Perdição" e um CD do John Pizzarelli cantando Beatles). Pelo menos, o rádio também se foi... Corri em direção ao meu filhote mecânico, murmurei para ele umas palavras de alegria por reencontrá-lo (mas bem baixinho, senão a polícia me consideraria inapta para levá-lo para casa e para outras coisas também), saltei para dentro do Deep e guiei, feliz, até em casa. Para compensar o susto, prometi a ele transformá-lo ao melhor estilo caminhoneiro. O plano, que ainda não pus em prática por preguiça temporal e financeira, consiste em comprar dois forros de assento feitos de fuxico bem colorido; uma dúzia de fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim; uma daquelas bolas de câmbio com um escorpiãozinho dentro; uma imagem de Jesus e um adesivo grande, com a frase "Eu dirijo mas Deus guia", e aplicá-los todos no Deep. Será que ele vai ficar feliz? |
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||