terça-feira, 8 de julho de 2003

Uma vizinha chamada Mirtes

Quando eu era pequena, morava numa vizinhança tipicamente suburbana. Daquelas em que as vizinhas ficavam no portão dizendo coisas agradáveis como "Mirtes, olha o caroço que me apareceu aqui debaixo do braço, menina!".

E a Mirtes: "Ah, dona Janete! Mas minha filha já teve isso, viu? Vixi. Foi no médico e teve que extirpar, sabe?"

O papo segue com comentários sobre o filho da fulana, que anda "mexendo com tóxico" (pronuncia-se tóchico), desde que começou a andar com aquele menino, o da desquitada da rua de baixo, acabou se envolvendo com essas coisas, era um menino bom, coitado!, são as más companhias... De fundo, o som do carro das pamonhas, pamonhas, pamonhas. Pamonhas de Piracicaba.

Até que ambas resolvem entrar para tomar um café e tirar uns dedinhos de prosa. A cena se move para uma sala decorada com aqueles elefantes de três tamanhos, forrados com pedacinhos de espelho, e uma estrela do mar com um termômetro colado, escrito "Lembrança da Praia Grande".

"Senta, Mirtes, não repara a bagunça, viu?", ao que a Mirtes senta no cantinho do sofá com plástico ainda intacto. E o papo vai para o "fuzil" que queimou ontem, depois da chuva de "granito", e o Válti teve que pedir um no vizinho do fundo e trocar correndo, porque senão ninguém ia tomar banho, magina!

Ainda tem um tempinho para falar da vizinha da casa "germinada", que não é que a gente quer ouvir, Deus me livre ficar falando da vida dos outros, mas sabe como é casa germinada, a gente escuta tudo mesmo e ontem a Juraci não tava discutindo com o marido?, parece que ele está saindo com a secretária, justo o Almeida que tinha aquela cara de santo!, mas sabe como é homem, eu não boto minha mão no fogo, tirando claro o Válti, que esse é que é homem bom.

E a outra sacode a cabeça concordando. Genial, essa vida. Meu plano é esse, quando ficar mais velha: arrumar uma casa "germinada", uma vizinha chamada Mirtes, meia dúzia de elefantes com espelhinhos e uma estrela do mar. Mas eu sempre vou ter uns pares de "fuzis" de reserva.

Clara McFly às 08:36 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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