quarta-feira, 2 de julho de 2003

Pula a fogueira, mané

Muito bem. Agora que o mês dos festejos juninos passou, acho que posso contar aqui a impressão que tenho desse negócio todo. Não quero magoar aqueles que simplesmente amam se vestir como espantalhos ou trocam a vida por um tacho de canjica. Mas que essa festa é um negócio estranho, lá isso é.

Pra começo, trata-se de um evento que pretende imitar o estilo interiorano de fazer comemoração, mas ninguém abre mão de botar lá uma trilha sonora pop. Vai dizer que toda festa junina toca música caipira? Mentira: eles executam dois minutos de “pula a fogueira, iaiá” e depois tudo vira Lulu Santos e Tribalistas.

Aquelas roupas também me causam uma estranheza danada. Todo mundo desentoca a camisa xadrez e o vestido de chita do fundo do armário ao mesmo tempo - temo que os bolores já tenham matado milhares de pessoas nesses festejos. Fala sério: se isso ficasse bonito de verdade, todo mundo sairia na rua o resto do ano trajado como peão de boiadeiro ou garota da ordenha.

Ou vai ver a graça seja mesmo encarnar o ridículo, é isso? Bom, se for, tudo bem. Porque de fato não tem nada mais patético do que pintar o rosto com carvão e desenhar bigodinhos ou sardas com o lápis de olho da mãe.

Minha irmã, oito anos mais velha, era perita nessa atividade quando eu era criança, daí meu trauma. Vocês viram aquela foto no Quem Somos? Pois é, foi tudo culpa dela. E como a maledeta se divertia fazendo isso comigo, eu podia sentir o olhar de chacota...

Comida de festa junina é outra tragédia. Vamos deixar claro: arroz é acompanhamento para almoço, leite com açúcar é bebida de café da amanhã. As duas coisas não deveriam ser misturadas numa panela, virar uma gororoba e depois serem servidas como sobremesa! É contra a lei da boa digestão!

Tá certo que paçoca e pé-de-moleque são quitutes gostosos e que ficar levinho depois de dois copos de vinho quente é um barato, mas parou aí. Não vale a pena passar horas engolindo fumaça de uma fogueira feita com eucalipto verde por isso, vá?

Só dou o braço a torcer sobre dois pontos de festa junina: o correio elegante e a cadeia falsa. Sobre o primeiro já expliquei, eu era tímida e esse era um artifício ideal para paquerar os meninos.

Sobre a cadeia? Ah, a cadeia... Pagar 50 centavos e encarcerar as pessoas que eu detestava por alguns minutos era uma aplicação financeira melhor do que ter comprado ações do Yahoo nos anos 90. Tudo bem, tudo bem: pode ser que eu seja mais estranha que essa festinha.

Fla Wonka às 02:02 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold